sexta-feira, 14 de abril de 2017

O retrato concreto de Alberto Salgado em Cabaça D'Água (2017)


Cabaça: excelente CD
O bom artista é aquele que sintetiza a sua obra em cima de sua outra obra, buscando o seu melhor e interiorizando o mecanismo de conhecimento pleno de sua arte por meio de mensagens criptografadas em forma de música, dança, letras e artes cênicas. Muitas vezes ocorre o contrário: o artista, seja ele em qualquer esfera, se baseia em trabalhos anteriores para que seu reconhecimento seja marcado por sua marca registrada, não fugindo do lugar comum e com ambientações dentro de um mesmo segmento, de uma mesma moldagem, não se utilizando de outras roupagens, não usufruindo novas ferramentas ou novas inspirações. Não é o caso do cantor e compositor brasiliense Alberto Salgado, que vêm de uma inquietação transparente e inerente perante o seu trabalho musical. Se olharmos para trás, veremos que Além do Quintal (2014) é um disco brilhante, com ritmos que agradam a todos e com a perfeição em um trabalho que o destacou no cenário da música brasileira por ser um disco autêntico, verdadeiro e ser considerado por muitos como uma obra-prima. Quatro anos distancia o primeiro CD de seu novo lançamento, Cabaça D’Água (2017), que já se tornou clássico antes mesmo de vir a público. É sempre uma ansiedade esperar pelo novo trabalho de Alberto Salgado, que é um desses cantores que nos pegam pela forma como compõe e pela voz que enaltece seu talento. Diferentemente de Além do Quintal, esse novo CD traz toda a movimentação sombria que o Nordeste assola, a tragédia de Mariana (Minas Gerais), as belezas de um futuro, os amores possíveis e a seca que matam os peixes. É um disco importantíssimo para entender o Brasil, pois Cabaça D’Água traz uma antropologia filosófica nas entrelinhas e que fica fácil a sua associação com a politicagem herdada em alguns âmbitos nacionais.  A esfera de escopo musical para a música de Alberto ressurge em um momento importante dentro daquilo que podemos catalisar com o inesperado, com o surreal, com a fantasia imaginada e idealizada por nossas mentes para que tudo não passe de um simples sonho. A realidade está embutida em versos como a vaidade do homem consome sede de viver, tanto pinga que some água de beber (Cabaça D’Água) e em ói que a tua coragem não me põe medo, ói que a minha vontade é teu desejo, ói que ce dormiu tarde e eu acordei cedo (Ói). Com produção do próprio Alberto Salgado e com a arte gráfica de Carol Senna, o disco ganha ares de uma estrutura privilegiada referente à mensagem que se deseja passar: antropologicamente, a cabaça é utilizada para servir alimentação para alguns povos e para muitos é utilizada como recipiente de água. Também podemos associar a cabaça como utensílio de várias gerações desde Cristovão Colombo, no ano de 1492, para guardar ouros e outras relíquias importantes para que não fossem furtadas. Levada da África para a Ásia, Europa e Américas como formalização da migração humana, a cabaça foi um importante instrumento como fonte de alimentação por meio dos oceanos para esses povos.  Aqui encontramos uma contradição que no disco de Alberto Salgado ela é bem explorada em ambos os aspectos: na música que leva título do álbum, Cabaça D’Água, o cantor se preocupa com a falta de água no planeta e nos lança a questão sobre a sede por água de beber. Já na música Da jangada em pleno mar, Alberto canta sobre as injustiças sociais que assolam nossas vidas perante as utopias existenciais. Vale ressaltar que esse decantamento é importantíssimo para a competência de todo o trabalho de Alberto, pois ele soube ministrar muito bem os lados representativos pela cabaça d’água refletida sociologicamente entre nós.  As participações especiais são para lá de especiais: Chico César dá o ar poético de sua graça em Ave de Mim, Silvério Pessoa nos surpreende pela força vocal no xote Pele de baixo da unha, Rafael Miranda nos encanta na derradeira Quem foi? e a sensacional cantora Carol Senna (grande revelação) dá o tom de lirismo em Força da fé. Um CD que precisa ser ouvido com o mesmo encantamento provocado pelo sentimentalismo de Alberto Salgado, um cantor que se torna a cada dia um expoente da nova safra da música nacional, com suas competências e sua originalidade impecável e que nos favorece o melhor de sua música.

 

Dados do disco

Produção: Alberto Salgado

Gravação: Feedback Studio Brasília

Técnicos de gravação: Valerinho Xavier, James Castro e Kiko Klaus

Mixagem e Masterização: Kiko Klaus / Estúdio Camarada Mixmaster | BH – MG

Concepções de arranjos: Alberto Salgado, Célio Maciel e Sandro Jadão

Arte gráfica: Carol Senna

Fotos de Alberto Salgado: Célio Maciel

Participais especiais:

Chico César na música Ave de Mim

Carol Senna na música Força da Fé

Silvério Pessoa na música Pele de Baixo da Unha

Rafael Miranda na música Quem Foi?

Produzido por PONTO4 Digital

Contatos:


Facebook: contato.albertosalgado

 

Cabaça D’Água (2017) / Alberto Salgado
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 7 de abril de 2017

O fantástico mundo de Luisa Maita


O fantástico mundo de Luisa
Não é todo dia que podemos ter a honra de ouvir uma cantora como Luisa Maita nas plataformas digitais, mas posso garantir que quem compra seus CDs ou assiste aos seus shows, reconhece sua importância dentro da música popular brasileira. Simplesmente, Luiza é uma cantora diferenciada, culta, refinada, intelectualmente cult e popularmente do povão. Se a massa encefálica ainda não descobriu Luisa Maita, então tem alguma coisa estranha nesse nicho: ela está aqui, bem no meio do povo, cercada por equipamentos refinados, mas com letras que simbolizam a tenra estrutura que pertencem à população. Se você não a ouviu, se você não a viu, se você não a conheceu ainda, peço para que corra e ouça Lero-Lero (2010) e seu mais novo lançamento, Fio da Memória (2016), que são obras-primas dignas dos melhores prêmios. Ela está ali bem diante de seus olhos, bem perto de seus ouvidos e ao alcance de suas mãos e se você perde essa oportunidade, infelizmente não há o que fazer. Seis exatos anos distanciam Lero-Lero de Fio da Memória e esse tempo foi primordial para que um fosse a extensão de complemento do outro, sem que ambos tivessem ligações diretas. Quando lançou o primeiro disco, a cantora era um dos nomes mais fortes do cenário musical, onde um pouco antes a cantora Céu despontava com sendo uma das melhores. Não há semelhança alguma entre ambas as cantoras e enquanto Céu seguiu uma linha mais vanguardista, Luisa optou por seguir uma linha mais atemporal, mas sofisticada, mais popular com requintes de intelectualidade. Não que Céu não tenha esses requisitos, mas enquanto uma seguiu uma linha mais popularesca dentro de um padrão não blindado, a outra seguiu por uma linha tênue entre a sofisticação e a beleza de uma pluralidade, que para entrar é preciso de senha. Se lá no início desse artigo eu disse que você precisava conhecer Luisa Maita e aqui digo que você precisa pegar uma senha, é porque não é qualquer um que vai escutar a rigor as músicas de Luisa com o mesmo afinco que escutam a música de Céu. Aqui entra a senha. Céu não é mais blindada, assim como não é mais Roberta Sá nem Mariana Aydar, enquanto que Luisa continua com uma blindagem que requer senha para entrar. Isso é bom porque a blindagem a cerca dos cunhões das paranerfálias musicais existentes. Mas é ruim porque Luisa pode viver em uma blindagem existencial por muito tempo. Lero-Lero é brasileiro, orgânico e com cheiro da zona sul de São Paulo: um cheiro cinzento, com mistura de barro e árvores secas. Fio da Memória é um disco que, a princípio, causa um estranhamento mórbido, secular, personificada e homeopática. É preciso ouvir de novo e de novo e de novo e quando você menos perceber, estará cansado de tanto que não ouviu ainda. Contraditório? Nenhum pouco. Faço referências à Lero-Lero porque para entrar no mundo maitense, você precisa ouvi-lo antes de entrar de cabeça em Fio da Memória. É como ler Platão sem entender Sócrates. Precisamos manter um pouco a blindagem de Luisa para que tenhamos certeza de que seu próximo disco será ainda mais categorial que Lero e Fio. Por enquanto, pegue uma senha enquanto não há filas exorbitantes de uma população insana e embarque no fantástico mundo de Luisa Maita.

 

Fio da Memória (2016) / Luisa Maita
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 24 de março de 2017

O vergonhoso baixo nível de Simone e Simaria



Baixo nível cultural
Não gosto da dupla de cantoras sertanejas Simone e Simaria e esse é o meu gosto particular e você não é obrigado a concordar comigo. Essa ondinha de cantoras sertanejas que descaracterizam o estilo, simplesmente não me descem goela abaixo e apenas desqualificam a raiz sertaneja e aqueles que construíram o costume popular do homem trabalhador, reforçando a cultura do campo, da roça, do povo humilde. Já disse inúmeras vezes que gosto da música sertaneja, mas antes de aberrações como Zezé di Camargo e Luciano, Leandro e Leonardo e outros insensatos aderirem ao estilo, deixarem a cinco palmos do chão de terra batida. De uns tempos para cá, as mulheres sertanejas vêm detonando a música de raiz e conseguindo afundar em mais dois palmos aquilo que já estava ruim. Exceto Bruna Viola, as demais cantoras estragam aquilo que chamamos popularmente de sertanejo universitário e, com roupinhas curtas a ponto de mostrarem pernas marombadas, cinturas de pilão, rostinho lisinho, cabelos bem tratados, essas mesmas cantoras se esquecem de um triunfo fundamental para com o público e para com aqueles que poderiam vir a gostar de suas músicas: o respeito. Como já disse em artigo sobre Marília Mendonça, o que essas mulheres cantam é a apologia à traição, ao desrespeito ao próximo, ao confinamento da própria mulher e a participação do homem como semente embrionária de um serviço hostilizado, como, por exemplo, o de poder ser infiel. Se tudo isso não bastasse, as cantoras que estão no topo do sucesso sertanejo são as irmãs Simone e Simaria que, com um astral que não contagia a ninguém, chegam a ser uma poderosa arma contra tudo aquilo que a pluralidade cultural tanto pede: o respeito ao próximo. Neste ponto que queria tanto chegar, gostaria de dizer que fico envergonhado de ver uma cantora chegar a agredir o seu público com tapas e pontapés para defender uma moral familiar, que poderia ser resolvido com a retirada do mesmo daquele ambiente pelos brutamontes seguranças. Chega a ser arrogante e intrépido parar de cantar para resolver no tapa e no grito aquilo que ficaria visível para milhões de brasileiros mundo afora. Se elas acham isso bonito e de grandeza espetacular, eu as repudio, pois a melhor forma de resolverem isso seria na resposta à altura para quem as ofenderam. Em primeiro lugar, elas precisam se colocar como cantoras e que estão sendo copiadas, infelizmente, por milhares de pessoas e essas atitudes de bater, chutar, empurrar, agredir verbalmente, apenas faz entrar para seus currículos a falta de empatia e civilização e, pior, que a educação que tiveram é tão baixa quanto as roupas que vestem. A música, definitivamente, sai perdendo com tudo isso.

O vergonhoso baixo nível de Simone e Simaria
Por Marcelo Teixeira

sábado, 18 de março de 2017

Disco (2013) de Arnaldo Antunes é um grande disco poético


O disco de Arnaldo
Não é de hoje que venho alimentando o desejo de escrever sobre Arnaldo Antunes e de poder dizer que o cantor e compositor se sobressai melhor em carreira solo do que com a banda Titãs. Isso fica claro e evidente em seus discos autorais e em músicas que a banda recusou, colocando o grande artista em destaque inferior (assim como fizeram com Nando Reis, ex titã). Arnaldo já passeou por todos os estilos musicais e por todas as esferas, que fica quase impossível dizer que não tenha sido explorador de alguma categoria musical. Grande poeta que consegue transpassar para a música o seu recado, Arnaldo vêm de uma veia roqueira com o coração manso, passando pelo mundo infantil (Pequeno Cidadão) até chegar os sensacionais e líricos Qualquer (2006) e Iê Iê Iê (2009). Pelo conjunto da obra e pela sofisticação territorial que conseguiu alcançar, o músico chegou à sua extensão poética de qualidade ímpar e solitária com o disco que chega a ser o ápice de sua carreira: Disco (2013 / Rosa Celeste / 27,99). Mas por que esse disco é tão bom assim? O que têm de tão especial que os outros discos dele não têm? Disco é simplesmente o resumo categórico de vinte anos que podaram a inteligência monumental de sua existência física e mental. A métrica simples que foi incorporada a todo o momento de forma única é o que marca a simetria de Disco, uma obra que praticamente nasceu pronta, mas que ficara guardada por muitos anos, em um simbolismo cultural arcaico perante os olhos de uns e sentimental e puro perante os olhos do autor principal. Tudo aqui soa muito simples, muito calmo e muito lúdico e, por esse motivo, Disco acaba sendo um disco atemporal, lírico e sincero.

 

Disco (2013) / Arnaldo Antunes
Nota 9
Marcelo Teixeira

 

 

sábado, 11 de março de 2017

Olívia Gênesi canta Chico Science


Olívia: grande cantora
Se estivesse vivo, Chico Science estaria completando agora no dia 13 de março, 51 anos, mas o Brasil acaba de completar no dia 02 de fevereiro, exatos 20 anos de sua partida. Pernambucano, Chico Science era um dos músicos mais completos de seu tempo e tendo a evolução à sua frente, com uma capacidade incrível de juntar ritmos, tocar instrumentos diversos dentro de uma mesma melodia e criar o Movimento Mangue Beat, ainda na década de 1990. Mesmo tendo uma carreira meteórica, o cantor e compositor teve dois discos gravados, turnês mundiais, crítica a seu favor, uma profusão de ideias na cabeça, amigos e músicos que se rendiam ao seu talento ímpar. Muitos cantaram Chico Science, mas poucos de fato reconheceram nele seu real significado. Chico era um artista tão completo que poucos conseguiam desvendar seu lado atemporal e essa atemporalidade permitiu que muitos cantores não ultrapassassem a linha horizontal entre o que de fato Science queria dizer com as letras de sua música como não chegaram ao ápice de uma verdade absoluta. O fato é que para cantar e representar dignamente a obra de Chico Science é preciso uma explosão de sentimentos provocados pelo próprio Science.  Pertencente a uma mesma cultura e homenageando o artista, a multi-instrumentista, cantora e compositora Olivia Gênesi vem desenvolvendo um projeto em que canta seus maiores sucessos, como A Cidade, A Praieira, Manguetown e as menos conhecidas do grande publico, como Maracatu de Tiro Certeiro, Samba Makossa e Cidadão do Mundo.  Olivia é uma expoente da boa música brasileira e está no projeto Manguebeat 20 Anos sem Chico Science, em que traz à tona toda a riqueza de detalhes do Mangue para o palco de forma acalorada, acústica e rica, dando uma remodelada nas músicas, com muito lirismo e muita poesia, dentro do contexto de Science. Vale ressaltar os belíssimos figurinos tanto de palco quanto de roupagem dos artistas que seguem a cantora, Bruno Balan (percuteria) e Fabio Dregs (guitarra). Olivia brilha no piano e na voz. Vale muito a pena ver a performance de uma artista como Olivia homenagear o artista único que foi Chico Science.
 
 

 

Olivia Gênesi canta Chico Science
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sábado, 4 de março de 2017

A obra-prima de Eduardo Gudin


Obra-prima de Gudin
Se fosse apenas pela interpretação de Eduardo Gudin, Um Jeito de Fazer Samba (2007 / Dabliú Discos / 26,99) já seria um disco e tanto independentemente de sua categoria. Mas as participações de Paulinho da Viola, Vânia Bastos e Quinteto em Branco e Preto fazem tanta diferença, que fica impossível não dizer que esse disco de Gudin não seja perfeito dentro de sua esfera.  Centrado em seu jeito particular de fazer samba, um jeito característico do compositor, esta obra-prima projeta a evidência de seu lado cancionista, como letrista em composições inéditas de sua lavra, bem como em músicas também surgidas no decorrer da vida, mas nunca antes gravadas, em parcerias com Paulinho da Viola, Francis Hime, Paulo César Pinheiro, Luiz Tatit, J. C. Costa Netto, Nelson Cavaquinho e Roberto Riberti. Este belo e rico trabalho celebra a expressão de um artista em sua plena convicção autoral e dominadora, fortemente ligada ao samba e à cultura assimétrica do Brasil, sublinhando a sutil formação do conjunto de informações musicais que assolaram nosso país quando o disco fora lançado. De 2007 até hoje são 10 anos de diferença e lá naquela época a proposta musical como um todo era diferente da de hoje, que requer uma malandragem sambística atemporal que nunca se viu.  O repertório de Um Jeito de fazer Samba tem dois momentos sublimes: a participação de Francis na composição da exuberante Moto Perpétuo e Luiz Tatit em Sensação. Destaque maior para O Amor e Eu, um dos sambas mais lindos que Eduardo Gudin compusera em um momento de distraída atenção poética e que resultou no samba de maior destaque de todos os tempos e que está aqui, bem neste disco atemporal, com um frescor único e sensibilizado à flor da pele.

 

Um jeito de se fazer samba (2007) / Eduardo Gudín
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Chico Buarque e um clássico que não virou clássico e hoje encontra-se perdido


Chico 1967: obra-prima
Talvez o próprio Chico Buarque saiba que seu segundo disco de carreira, o antológico Chico Buarque de Hollanda – Volume 2 (1967 / RGE / 26,99) não chega a ser considerado um disco de primeira grandeza em sua carreira. Primeiro que o disco praticamente passa desapercebido do grande público hoje em dia e esse trabalho de relembrá-lo fica apenas restrito aos amantes e apaixonados pela obra do cantor e compositor carioca, que produziu o Volume 2 no rastro do enorme sucesso de seu disco de estreia, em especial por causa da faixa A Banda, pois a maioria de suas canções – tanto do primeiro quanto do segundo disco – não frequentaram as paradas de sucesso. O povo queria saber apenas de A Banda e da menininha timida que cantara ao seu lado nos festivais da TV Record – a musa da bossa nova, Nara Leão. Mas há de deixarmos claro e evidente aqui que mesmo que Volume 2 não tenha tido êxito na época de seu lançamento, algumas faixas viraram febre nacional e são hits que figuram na lista de preferidas de seu público, como Noite dos Mascarados, Morena dos Olhos d’Água, Quem Te Viu, Quem Te Vê. O novo álbum é cingido pelo mesmo lirismo nostálgico de seu antecessor e das 12 faixas, 8 tratam diretamente do amor. A música Com Açúcar, Com Afeto é um marco importantíssimo na carreira de Chico e foi essa a primeira composição em que ele se colocou na posição de uma mulher ao compor, sendo um recurso poético que, com o tempo, se tornaria uma de suas mais admiráveis marcas registradas. Chico atravessou boa parte de 1967 como que arrastado pelo sucesso contagiante de A Banda. A canção valera-lhe um programa na TV Record, o Pra Ver a Banda Passar, em que Chico apresentava em dupla com Nara Leão. Foi a partir deste ano que Chico diversificou sua criatividade. Travou um duplo contato inaugural com o cinema, atuando e compondo a trilha sonora do filme Garota de Ipanema, escreveu Roda-Viva, sua primeira peça teatral dita adulta e no ano seguinte, 1968, esse mesmo elenco de Roda-Viva seria agredido covardemente pelo Comando de Caça aos Comunistas. Mas o ano de 1967 era de fato um divisor de águas na vida de Chico: além de ter um programa na TV de maior sucesso com a musa da bossa nova, ver seu disco ser revenciado pelas pessoas (tanto o primeiro quanto o segundo) e ser um autor de peças teatrais consagrado, o seu plano pessoal o casamento com a iniciante atriz Marieta Severo lhe renderia um ano na ponte área Rio-São Paulo. Tudo isso era um turbilhão para o filho do historiador e antropólogo Sérgio Buarque de Hollanda, pois seu quarto filho de um total de sete, tinha apenas 22 anos quando viu seu mundo deslanchar.

O disco herda de seu antecessor, Chico 1, o mesmo lirismo nostálgico: suas 12 faixas enveredam por temas como os amores fugazes de Carnaval, dor de cotovelo e saudades, todos emoldurados em sambas, marchas e modinhas de melofia cativante e letras de elevada voltagem poética. O novo álbum, no entanto, passa à margem de certas questões que atormentavam o compositor naquele momento, porque quatro de suas canções haviam sido compostas nos dois anos anteriores e duas delas, Morena dos Olhos d’Água e Será que Cristina Volta?, chegaram a ser gravadas para seu primeiro LP, mas acabaram ficando de fora. O fato é que Chico, em 1967, brigava com muitas frentes para ter seus direitos preservados: lutava contra o governo autoritário, contra a sociedade de consumo americanizada, contra as indústrias culturais e, em especial, contra a imagem de bom moço que construía em torno de sua figura. Era essa a sua roda-viva. Até mesmo com o movimento tropicalista Chico se estranhou: ao ler o livro de Caetano Veloso, Verdade Tropical ( 1997 ), pude perceber o quanto Chico era um verdadeiro empecilho (palavras de Caetano Veloso) na vida dos tropicalistas. O tropicalismo, vertente baiana e iconoclasta da MPB de então, estava em alta em 1967. Alegria, Alegria, de Caetano, fora a quarta classificada no III Festival de MPB da Record, enquanto Domingo no Parque, de Gilberto Gil, ficou em segundo. Entre ambas, Chico e sua Roda-Viva. A campeã de fato foi Poneio, de Edu Lobo e Capinamm interpretada por Marília Medalha. Caetano e Gil, veladamente, haviam incorporado guitarras elétricas aos seus arranjos e aventuravam-se em novas experimentações poétias e de linguagem, coisa que Chico não aceitava. Para Caetano e Gil, Chico era um passadista. Para tanto, a ala mais militante da MPB cobrava de Chico um maior engajamento na luta contra a ditadura. Chico, por sua vez, odiava o rótulo de cantor de protesto.

Além de ter tudo ao mesmo tempo em sua vida e se ver ao lado de Nara Leão mas contrário à Caetano e Gil, ele viu que a MPB, na verdade, era apenas a face mais visível de um racha que começava a se desenhar entre os opositores à ditadura no Brasil. Não compensava ficar de birra em início de carreira e, portanto, tentou uma aproximação mais contundente dos tropicalistas baianos – que nessa altura já estavam próximos de Rita Lee e seus mutantes. Pesquisando por conta própria para elaborar e escrever este artigo, tive uma grata surpresa ao me deparar com um depoimento assombroso: até hoje muita gente acha que os atores de Roda-Viva foram espancados pelos gorilas do CCC por encenarem uma peça considerada subversiva. Não era nada disso ou daquilo: o espetáculo tinha muito pouco a ver com a política. A tal roda-viva tinha muito mais a ver com as engrenagens implacáveis do show bussiness que na época assustavam Chico e muitos achavam que a peça identificava-se com a ditadura.

Esquivando-se completamente de Chico e Gil, Chico voltaria sua atenção para Tom Jobim, Vinicius de Moraes e, curiosamente, Ronnie Von. Ronnie era de outro estilo musical que assolava o Brasil, a Jovem Guarda, mas a parceria entre os dois foi motivado pelo filme Garota de Ipanema. O fato é que Ronnie era um de estilo mais timido – e que conquistava muitos fãs – dentro da Jovem Guarda, mas o próprio Ronnie parecia que não se sentia muito a vontade dentro de seu próprio estilo. Em 1968 a Jovem Guarda se desfez – e dizem que a culpa fora dos Tropicalistas. Dito pelo não dito o fato é que Chico estava envolvido cada vez mais com sua música e sabia que ele e Caetano, díspares musicais, eram competidores hábeis.

Mesmo o disco de 1967 não sendo um grande sucesso de início e tendo tantos dissabores ao longo de sua caminhada naquele ano, as composições foram feitas com a primazia que Chico soube aplicar nas canções. Apesar de sua graça suave, Um Chorinho é até hoje uma canção pouco conhecida de sua obra por inteiro, assim como outras canções desse mesmo álbum entrariam para o rol de lugar secundário na discografia de Chico, como Lua Cheia, um samba cheio de desencanto composto em 1965 em parceria com Toquinho. As composições Ano Novo, com seus versos longos e curtíssima duração – pouco mais de 1 minuto – Logo Eu?, samba sobre um marido desprezado por sua mulher (cujo Mônica Salmaso o regravou em seu disco em homenagem a Chico em 2006) e Televisão, uma crítica aos novos hábitos consumistas da época, também foram recebidas com indiferença pelo público e até hoje praticamente não se falam ou as cantam. A bem humorada Será que Cristina Volta?, Fica e a terna Realejo conquistaram fãs silenciosos, mas nenhuma delas chegou a fazer grande sucesso.

A doce Morena dos Olhos d’Água e a melancólica Quem Te Viu, Quem Te Vê deixaram suas marcas, assim como a encantadora Noite dos Mascarados, cantada aqui com os Três Moraes, ainda é obrigatória em qualquer baile de carnaval que se preze.  Mas a obra-prima do disco, no entanto, é mesmo a quase mediunicamente feminina Com Açúcar, Com Afeto. A música, encomendada pela cantora Nara Leão, teve na contracapa do disco assinada pelo próprio autor que, por razões óbvias, ele não poderia cantá-la. Ou seja, ele não era uma mulher e a música tem um apelo feminino inacreditável. A voz límpida de Jane Morais suavizou bastante a interpretação. A canção fora composta em 1966 e naquele tempo era inconcebível um homem interpretar uma mulher. Mesmo sendo um Chico Buarque.

É bem provável que Chico Buarque de Hollanda Volume 2 jamais venha a figurar entre os álbuns fundamentais do compositor. De todo modo, é um disco importante em sua trajetória. Tecnicamente irreparável, poeticamente serena e inspiradora. Tudo em sua confeccão parece ter corrido sem transtornos. A única exceção fica por conta da capa, em que Chico, de pé, segura um violão, tendo ao fundo a paisagem deslumbrante da lagoa carioca Rodrigo de Freitas. Para obter essa imagem, o fotógrafo David Zingg, americano radicado no Brasil, deitou-se no asfalto da avenida que circunda a lagoa e, por pouco, não foi atropelado por um caminhão.

 

Fontes:

VELOSO, Caetano; Verdade Tropical, 1º ed, São Paulo, Cia de Bolso, 2008, 513 pgs.

HOMEM, Wagner; Chico Buarque – História de Canções, 1 ed, São Paulo, Leya Brasil, 2009, 428 pgs.

 

Chico Buarque de Hollanda – Vol. 2 (1967) / Chico Buarque
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Elis, trilha sonora do filme: mais uma obra de baú


Elis: CD de baú
Salvo pela ótima e excepcional interpretação de Andréia Horta, o filme Elis (2016) não tem nada de especial. Venhamos e convenhamos que o filme é mais um musical do que um filme propriamente dito, em que contasse as verdades de Elis, os julgamentos pessoais, o verdadeiro nascimento de uma estrela, seus verdadeiros amigos, suas inimizades musicais e pessoais, o caloroso amor por Milton Nascimento, a relação com os filhos, o desafeto com Tom Jobim e Chico Buarque, o rancor por Nara Leão e Maria Bethânia, o amor incondicional por Rita Lee e Gal Costa e o amor platônico por Clara Nunes. Cadê Tim Maia? Cadê Samuel Wainer, seu último namorado e que a vira estirada no chão do apartamento da rua Doutor Mello Alves, nos Jardins? Cadê a verdadeira história? Não houve nada disso e o público fora subestimado a assistir um musical reproduzido dos palcos brasileiros para as telonas. A qualidade do filme é excelente, as cenas são primorosas, a luz está perfeita, a direção foi impecável, mas o essencial faltou: não retrataram a vida de Elis conforme o enunciado. Trataram seu lado musical. Esqueceram de colocar suas famosas entrevistas, suas diversas frases de efeito moral, seus pensamentos acerca da música, seu carinho por João Bosco. E cadê a passagem com as drogas? Cadê o envolvimento rápido e conturbado com Fábio Junior e Guilherme Arantes? Não houve nada disso. Para além do filme houve o acontecimento rápido de se lançar um disco: tudo foi proposital. Primeiro lançam o filme mediano e em seguida um CD com os melhores sucessos da cantora. É sempre assim. Mas não trata-se de um grande filme (reitero que a interpretação de Andréia Horta e a direção estão impecáveis, mas faltaram argumentos para ser o filme do ano) e não trata-se de um grande disco. As prateleiras terão apenas mais um disco de coletâneas de Elis Regina com uma capa diferente. Porém, o que não foi retratado civilizadamente no filme foi colocado propositadamente no disco, como a faixa em que Nara Leão canta Borandá (1964) e Cartola interpretando O sol nascerá, registro também de 1964. Se a intenção era fazer um filme para homenagear uma das maiores cantoras do Brasil, o tiro saiu pela culatra, porque falta informação decente e coerente para com a artista que revolucionou a música brasileira e se tornou uma das maiores vozes do mundo através de sua garra e determinação. Faltou entusiasmo, carisma e o principal: a vida da artista. Para quem acompanha a carreira da cantora certamente ficou descontente com o resultado final, mas a ideia  central aqui é resgatar Elis para o público novo, para que sua imagem seja lembrada à nova geração. Portanto, tudo errado na diagramação de Elis. Por que não fizeram tal qual o filme Piaf – Um Hino ao Amor, em que retrataram fielmente sua ascensão e sua decadência, seus amores impossíveis e nostálgicos? Tanto tentaram camuflar a vida de Elis e seus turbulentos momentos de crise que o filme logo cairá no esquecimento e o CD com a trilha sonora logo será artigo de arquivo no baú.


Elis – o filme (trilha musical)
Nota 4
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Onde está a esfera de Tássia Reis?


Tássia: sem graça
Ainda não entendi bem o real significado musical e a proposta de trabalho da cantora Tássia Reis, que está sendo chamada aos quatro ventos de a nova queridinha da música popular brasileira. É preciso, antes de mais nada, entender o seu real teor, a sua real batida e a sua proposta para que seja batido o martelo sobre aquilo que podemos ser considerado como a nova queridinha da MPB. Tássia é uma rapper e que nasceu cantando rapper e que queria se imortalizar como rapper, mas no entanto o mundo a guiou para o mundo das calmarias e atemporalidades que a música popular a resgatou com toda a ternura e objetividade possível. Mas Tássia Reis, nome forte, maquiagem poderosa, postura de guerreira, olhar decisivo e canto morno, nasceu dentro do rapper. A mudança de um estilo à outro é normal dentro de um segmento musical, ainda mais no caso de Tássia, cantora conhecida dentro de seu mundo de rimas sincronizadas, mas totalmente desconhecida para o público que cultiva e respira MPB. Mas sua entrada foi bem aceita por nove entre dez pessoas e esse feito é sensacional, mas ainda é preciso de um pouco de parcimônia para poder dizer se Tássia de fato é uma nova cantora de MPB ou apenas fantoche do final de ano. Sendo um grito pulsante na internet e liderando a causa negra como meta, Tássia Reis é uma cantora que luta contra as minorias e a favor próprio pela sobrevivência. Suas músicas retratam esses momentos, principalmente em seu último disco, Outra Esfera (2016 / 24,99), que tem uma pegada levemente africana e com muita sinceridade poética. Isso apenas não resultaria em um bom ou ótimo disco, mas Tássia não está totalmente perto da perfeição como cismam algumas pessoas: ganhando corpo e forma em uma esfera que praticamente nunca pisara, a cantora se mostra a cópia fiel de outra cantora, a popular e ambientalista Tulipa Ruiz. Com vozes idênticas, Tássia acaba sendo uma complementação da obra inacabada de Tulipa, que não preserva agudos em suas músicas e canta o mais alto que puder. Tássia não chega a berra no microfone, mas acredito que sua música ainda não seja atribuída à sua performance para ser considerada a revelação de 2016. Falta muita coisa para que isso de fato aconteça, mas já seria de bom tamanho pensar em uma forma de se mostrar mais brasileira e menos importada, tanto nos trejeitos enquanto canta, como nas vestes, na maquiagem e na formatação de seus discos. Por hora, Tássia Reis é apenas Tássia. Sem reis.

 

Outra Esfera (2016) / Tássia Reis
Nota 6
Por Marcelo Teixeira

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Marília Mendonça e a retratação infiel do sertanejo brasileiro


O estranho, o sertanejo e a Marília
Nem tudo aquilo que reluz é ouro e nem tudo aquilo que é meramente repentino é sensacional. Muitas vezes aquilo que é novo passa a ser algo supérfluo e aquilo que não é escutado com cautela com o tempo nos revela ser uma grande obra prima. Pode acontecer também de surgir do nada uma nova voz e acharmos que trata-se de uma voz poderosa e que marcará gerações, mas também pode ocorrer dessa mesma voz ir se desmanchando com o tempo, ficando irresistívelmente cansativo e atemporal. Poderia eu ficar aqui destilando mil e uma formatações de vozes e estilos, assim como eu poderia ir direto à chave central deste artigo: em 2016 o Brasil viu surgir uma nova voz sertaneja que eclodiu pelos quatro cantos do país como sendo uma revelação musical dita da melhor qualidade, do melhor estilo e do melhor momento. Evidentemente que Marília Mendonça não é uma voz carismática, Marília Mendonça não é um talento aprazível, Marília Mendonça não é uma grande revelação da música sertaneja, Marília Mendonça não é nada, a não ser uma cantora que acha que é cantora, que não tem postura alguma de cantora, que não canta absolutamente nada de novo e que não vai ser nada de nada. Com uma voz que nos remete à Ana Carolina (apenas uma comparação de vozes, não querendo rebaixar em hipótese alguma a cantora Ana Carolina), Marília Mendonça surgiu em um momento em que o estilo sertanejo pedia. Enquanto Anitta briga com Ludmilla um espaço vanglorioso dentro de seus estilos pop urbano, Sandy, Manu Gavassi e Wanessa duelaram um espaço entre o público jovem e pré adolescente, Ivete Sangalo e Claudia Leite foram assistidas de camarote por Daniela Mercury para ver quem é a mais legítima baiana e Luan Santana agora encontrou em Tiago Iorc um desafio irrecusável, Marília Mendonça foi fabricada às pressas para duelar diretamente com a desamparada Paula Fernandes. Óbvio que o brilho das duas sertanejas se sobrecaem repentinamente em um emaranhado de superficialidades musicais e estéticamente falando, mas o fato é que Marília não se comporta como cantora e nunca será dita de ser uma a altura das grandes divas sertanejas, como Inezita Barroso ou As Irmãs Galvão. Falta-lhe coro, falta-lhe estima, falta-se discernimento acentuado de mulher, falta-lhe estilo, falta-lhe carisma, falta-lhe tantos adjetivos que não me atrevo mais a continuar. Com uma brega música ridícula que gruda na mente, a neo-cantora parece que engoliu um balão de oxigênio e flutua nos palcos como se fosse balão inflamado. Caracteristicamente, sua voz não agrada, seu sorriso é forçado, suas vestes não se adequam e sua tez é de uma pessoa mundana, meramente comercial, nada cultural. Infelizmente o Brasil carece de cultura e, mesmo tendo que respeitar diversas delas, somos obrigados a aceitar Marília Mendonça dentro dessa parte globalizada. Sendo a nossa Adelle suburbana, Marília Mendonça consegue ser o fundo do poço que assolou o mundo sertanejo com vozes femininas depois de Paula Fernandes e nesse estilo quem se salva é Bruna Viola, que é a típica cantora regional com prestígio e determinação musical invejável.O que me dói como ser humano é ver diversas mulheres se passando por Marília Mendonça retratada em suas músicas. Uma pena que isso aconteça, pois enquanto mulheres se sentem traídas e infiéis, mais o mundo globalizado perde seus direitos éticos e morais.

 
Marília Mendonça e a retratação infiel do sertanejo brasileiro
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

O MM de Marisa Monte (1989)


MM: antológico e perfeitinho
Disco antológico de Marisa Monte lançado para ser um sucesso de crítica e público, MM (1989 / EMI / 31,90) é um dos melhores discos da carreira da cantora e compositora carioca pelo simples fato de ter tudo aquilo que Marisa gosta: MPB, rock, samba antigo, jazz e muita simplicidade.  A partir deste conjunto de sons e referências, a carreira da cantora deslanchou de uma forma que já era esperada, com casas noturnas lotadas, disco vendendo muito bem e uma sequência de obras que foram lançadas no decorrer dos anos de 1990. Marisa era um fenômeno de público, venda, crítica e dela mesma, que não aceitava erros em suas diagramações vocais. Nascia ali uma diva que seria insubstituível, uma cantora que nascera dos palcos e ganhava o mundo afora com sua voz, seu carismo e sua determinação em fazer uma música de alta qualidade para um público popular. De Candeia aos Mutantes passando pelo rock agressivo de Titãs e uma versão meticulosa de Negro Gato, imortalizada por Roberto Carlos em disco lançado em 1966, Marisa Monte fez a extensão de sua própria ideologia musical com a tênue sensatez que o ouvinte precisava ouvir e o resultado disso são alcances primorosos de agudos solares impressionantes para uma cantora que fizera sua carreira inicialmente nos palcos, feito raro para qualquer artista, pois o que muitas vezes acontece é o inverso: o artista inicia nos barzinhos, passa para o estúdio e complementa nos palcos. Óbvio que Marisa passou por alguns barzinhos, mas sua formação, como ela sempre dissera, está ligada ao mundo dos palcos. Depois de uma longa temporada estudando canto lírico (sua paixão) em Roma, Marisa resolveu voltar ao Brasil para fazer carreira aqui. Há quem diga (e talvez seja pura verdade) que o produtor musical Nelson Motta seja o grande influenciador de Marisa Monte nessa sua primeira incursão pelo mundo dos LPs, tanto que eles chegaram a namorar um tempo. Verdade ou mito, o fato é que MM é uma obra prima grandiosa e parte itinerante de qualquer discografia daqueles que idolatram a MPB.  MM prova todo o lado eclético de uma cantora que nasceu lírica e com um universo totalmente particular, que conseguiu driblar a própria censura ao ser identificada com as tendências que nunca seguiu.

 

MM (1989) / Marisa Monte
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Dona Onete grava seu primeiro DVD


Dona Onete: rainha do Norte
Não é sempre que uma típica rainha do Norte é homenageada fora de seu país local e dentro do território americano. Pois este feito foi conquistado pela diva atemporal Dona Onete, que foi parar em solo americanizado e muito paparicada pelo baiano Caetano Veloso, que se rendeu aos seus encantos e sua ternura. Além de fazer shows em breve aqui em São Paulo (logo mais trarei maiores detalhes sobre esse momento mágico), eis que a cantora e compositora está esbanjando alegria devido à gravação de seu primeiro DVD. A matéria completa desta sensacional notícia está no site http://zip.net/bctCk0 

 
 
Dona Onete grava seu primeiro DVD
Por Marcelo Teixeira

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O Síssi da Marina Lima


Síssi na Sua: último disco bom
Lançado originalmente no ano 2000, Síssi na Sua (2000 / Universal Music / 29,00) foi relançado por um site de músicas no ano de 2016 com formato de download e o feito foi tão grande que alçou a carreira meteórica da cantora Marina Lima ao topo das mais clicadas virtualmente. Pudera: Síssi na Sua é um disco deliciosamente primoroso, com começo, meio e fim e que tem um brilho sinestésico capaz de nos hipnotizar profundamente. Quando lançado, a voz de Marina já não estava tão boa, passando por uma depressão repentina que afetou suas cordas vocais a ponto da cantora pensar em desistir da carreira. Sem lançar discos há um tempo, Síssi na Sua é um disco que tem a missão de retomar a carreira da cantora, passando a limpo todos os pontos nevrálgicos de sua estadia dentro da música e de mostrar sua importância e seu talento assimetricamente. Aqui estão reunidos seus maiores sucessos, como Fullgás, À Francesa, Nem Luxo Nem Lixo, Deixa Estar e Acontecimentos. A depressão, tão recorrente em sua vida, assim como a maioria das canções compostas anteriormente à Síssi falam de desencontros, solidão e de uma infinita busca pela respiração em meio aos ruídos da metrópoles. A cantora piauiense com naturalidade carioca faz ótimas releituras em grande estilo e com a primazia de uma grande intérprete da nossa música, sendo alguns deles com arranjos novos e outras sem retoques. Mesmo com a voz não soando brilhantemente como nos tempos áureos, a cantora faz questão de mais recitar suas pérolas do que cantá-las, mas isso não importa tanto, pois o que vale aqui são as músicas, coisa que nós mesmos, como ouvintes, podemos fazer. Estando mais leve e sem a preocupação de querer agradar, Marina se mostra mais autêntica e solta do que em discos anteriores, em que o crivo central era a massificação pela canção perfeito e o respaldo em ser o disco do ano. Roqueira nata, a cantora deixa claro que o que importa é a sua música como mote maior e o que ela mais pede em Síssi na Sua é que cantemos com ela. Então, cantemos com Marina Lima suas depressões, suas solidões e seus tormentos.

 

Síssi na Sua (2000) / Marina Lima
Nota 7
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Mais Cultura Brasileira - 2017


Ano novo, músicas antigas
Eis que estamos aqui mais uma vez iniciando os trabalhos de 2017 sem pausa para descanso. Neste ano que se inicia o Mais Cultura Brasileira celebrará o seu sexto ano com muitas novidades: e quem ganha é você. Para tanto, há de ser comentado aqui que os planos para este blog foram pensados em 2016, mais precisamente entre Julho e Agosto, para serem executados com exatidão este ano. A meta é manter o mesmo foco, a mesma determinação, o mesmo entusiamo em poder escrever a verdade sobre a música, a verdade sobre as informações, a verdade sobre os cantores e a verdade sobre a fonte recebida. As mudanças são sempre bem vindas e cabíveis de um entorno de reciprocidade compactuada com aqueles que lêem os artigos diariamente, sendo assim, a primeira grande novidade para este ano de 2017 é a celebração de dois cinquentões: a primeira grande homenageada do ano será a cantora e compositora Marisa Monte, que completará 50 anos de idade em Julho e por esse motivo, ela será ovacionada com artigos diversos, fotos de sua carreira e passagens aqui ou ali no mundo da música, enaltecendo sua importância, sua capacidade artística e sua vocação para com a música popular brasileira. Outro grande homenageado será o cantor e compositor Chico Buarque, que terá um longo artigo sobre o lançamento de Chico Buarque de Hollanda – Volume 2 em 1967, sendo o segundo disco de sua carreira e que o consagrou definitivamente como o maior intelectual de nosso tempo. Mas as novidades não param por aí: além da pesquisa diária sobre o novo, o que é novidade, o que vai ser novidade (assim como o que é descartável tamvém), vamos manter o foco em buscar novos entrevistados e reverenciar livros que tratam de música, na qual chamo carinhosamente de música para os olhos e a mente. Não será um ano fácil, tendo em vista que para escrever é preciso de muita pesquisa, uma determinação escomunal para levar o meu sentimento verdadeiro para que você tenha total segurança sobre determinado artista e disco resenhados. O meu papel como crítico de música é justamente este: o de entreter você à ouvir a boa música, pensar sobre a música duvidosa e a conhecer aquilo que está apenas no meu infinito particular musical. O Brasil é vasto de cantoras e cantores que precisam ser conhecidos mais profundamente e independentemente de ano e estilo, o blog nasceu para isso. E não é a toa que estamos entrando em seu sexto ano de escrita musical. Os planos estão aí, agora vamos pôr as mãos na massa. Feliz 2017!

 
Mais Cultura Brasileira – 2017
Por Marcelo Teixeira

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

O crítico de música e o crítico clichê: as nuances musicais


Existe crítico verdadeiro?
Sibelius (1865 – 1957) um dia disse: não devemos dar demasiada atenção ao que os críticos dizem. Nunca foi erguida uma estátua em honra de um crítico. Discordando da frase do compositor filândes de música erudita, mas acreditando sumariamente que não é preciso de estátua para criticar algo ensaísticamente, acredito na liberdade de imprensa para poder escrever aquilo que bem quiser em um blog totalmente independente, estando liberto das agruras dominadoras de patrões e chefes alienados com o pudor de escrever corretamente sobre determinado cantor ou cantora, sobre seus discos e sobre suas atemporalidades.  Talvez Sibelius soubesse que sua música erudita não atraía multidões e acreditando em sua impopularidade mundo afora, tenha creditado que os críticos de música o criticavam veementemente. Criticavam sua música e não sua pessoa – arrogante, feroz, atroz, mas intelectual, culto e refinado.  Acredito na significativa despudorada de poder resenhar tal artista com as minhas próprias palavras, marca característica e herdada de uma forma natural e que angaria um semblante favorável à minha pessoa. E acredito, piamente, que o mundo precisa de críticos de música com mais verdade, com mais ideal, com mais frescor, com mais tinta, com mais austeridade, com mais postura, com mais crítica. Gustave Flaubert (1821 – 1880), esritor francês de personalidade psicológica marcante, disse faz-se crítica quando não se pode fazer arte. Concordo plenamente com a frase de Flaubert, mas o que seria de nós, críticos de arte, se também fossemos artistas de artes como a música ou a dramaturgia? Quem poderia nos criticar? O público é leigo no assunto criticidade e quando o fazem, não conseguem discernir o que é capaz de ser criticado daquilo que pode ser uma solução para a crítica. Acima de qualquer coisa, sou um crítico que critica o que precisa ser criticado. Sou um ensaísta, um cronista, um escritor que escreve sobre aquilo que realmente precisa ser escrito. Não procuro aquilo que deve necessariamente estar postado e prostrado no meu mural: eu escrevo conforme meu tempo, sem a necessidade sumária de preencher a alegria de patrões, de gravadoras, de artistas. Não sou pago para escrever aquilo que não acho legal e não sou pago para elogiar um artista só porque está na mídia. Artistas precisam ser criticados, assim como seus discos precisam de notas avaliativas para estarem no crivo de uma sensata resenha. Escrevo sobre música porque gosto, porque aprecio e porque sinto a necessidade ulterior de divulgar a nossa música popular brasileira ao outro. Não preciso escrever sobre o cantor da modinha, não preciso exaltar a cantora que lançou um disco mediano apenas para dizer que sou antenado com a música. A música está jorrada aos quatro ventos e a cada dia nasce uma cantora nova, um cantor novo. Mas não preciso, categoricamente afirmo, me humilhar para escrever aquilo que acho desnecessário. Existe um milhão de artistas que não merecem sequer uma crítica negativa, assim como existe uma infinidade de artistas que vivem enclausurados para um seleto grupo de seguidores e é sobre esses artistas que gosto de resenhar: seja o artista de beco, seja o artista consagrado, seja o artista popular, seja o artista impopular, seja o artista ruim, seja o artista bom, seja o artista da grande mídia ou seja o artista de pequena mídia, eu escrevo para que o meu leitor tenha ciência de que existe uma seleção de achados e perdidos espalhados por aí que precisam ser (re) conhecidos para um devaneio de musicalidade. O verdadeiro crítico de música não busca apenas palavras confortantes para agradar ao artista, mas busca na sua interpretação, no seu projeto, no seu propósito aquilo que está escondido por trás de cada música. Não julgo o disco pela capa, não julgo o artista pela voz, não julgo o artista pela roupa, não julgo o artista por outrora: julgo o conjunto da obra, incluindo aqui a capa, o artista, a voz, a roupa, o que ele representou no passado. O bom crítico de música sabe reconhecer que o disco X foi merecedor de nota alta enquanto o disco Z é merecedor de uma nota mais baixa: saber reconhecer isso é o mínimo de todo e bom crítico de música. Não podemos nos vender por tão pouco, como vejo outros críticos se rendendo ao brasão da empresa em que trabalham. Sejamos mais humanos. Sejamos mais realistas. Sejamos mais críticos de música verdadeiramente honrados em criticar com gosto, com vontade, com verdade. A música agradece. A escrita agradece. O leitor agradece.  Fechando com a bela frase do mágico californiano Channing Pollock (1926 – 2006) um crítico é um homem sem pernas que ensina a correr. Que venha 2017!

 

O crítico de música e o crítico cliclê: as nuances musicais.
Por Marcelo Teixeira