sábado, 17 de fevereiro de 2018

Maria Alcina homenageia Caetano Veloso em disco primoroso

As loucuras de Maria Alcina
Assim que foi revelada no Festival Internacional da Canção com a emblemática Fio Maravilha, em 1972, a cantora Maria Alcina foi contratada para gravar seu primeiro disco e uma das músicas escolhidas foi Mamãe Coragem, de Caetano Veloso e Torquato Neto. Desde então o compositor baiano passou a fazer parte do repertório da cantora, que lançou no ano passado o sensacional Espírito de Tudo (2017 / 28,00), mais um trabalho ousado na sua discografia. Todas as décadas de Caetano estão presentes nas dez músicas que integram o disco, desde os anos 1960 (Tropicália e A Voz do Morto) aos anos 2000 (Rocks e A Cor Amarela) passando pelos anos 1970 (Os Mais Doces Bárbaros e Gênesis), chegando a nostalgia do melhor de Caetano, como Língua e O Estrangeiro, até a espetacular Fora da Ordem, da década de 1990. O convite para fazer esse disco surgiu a partir de conversas noturnas do produtor Thiago Marques Luiz com Alcina e, por meio de suntuosas alegrias e felicitações, ela abraçou a ideia e se jogou num processo de criação coletiva com os três jovens multi-instrumentistas que elaboraram os arranjos do álbum misturando rock, pop e música eletrônica: Rovilson Pascoal nas guitarras, Ricardo Prado nos teclados e baixo e Arthur Kunz nas baterias e programações. Os três pertencem ao grupo Strobo e fizeram um disco mais que sensacional ao lado de Maria Alcina reverenciando todo o currículo de Caetano Veloso.

Espírito de Tudo (2017) / Maria Alcina
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Jojo Todynho: modinha em forma de tiro

Jojo: aberração musical
Anitta fez dois desserviços ao mesmo tempo e, como isso, poluiu o cenário da música brasileira com dois quilos de lixos que o público está digerindo de uma forma inescrupulosa: além do cantor Pabllo Vittar, a cantora Jojo Todynho está infestando as pessoas com a modinha de Que tiro foi esse?, uma espécie de moda passageira que nasce instantânea e morre à míngua assim que um outro hit do momento aparecer. Com um tremendo mau gosto, a música bombardeia as pessoas de uma tal maneira, que fica impossível não deixar a música penetrar nossos ouvidos e mentes por alguns milésimos de segundos. Alçou Jojo ao estrelato, ao mundo da fama e ao mundo subservo das contrariedades. Tudo aqui soa como um tremendo destrato para com aqueles que ainda idolatram uma música de qualidade com requintes de pensamentos verdadeiros. Mas a culpa disso tudo parte, em grande parte, de dois meios diretivos que conseguem manter esse e outros tipos estranhos na música popular por muito tempo: os veículos de comunicação e o público, que seguem cantando suas paródias num ritmo alucinante e enganador. Afinal, músicas desse nível não servem para nada a não ser para provar que essas pessoas são tão baixas quanto seus idealizadores. O mesmo tiro que Jojo dispara hoje será o mesmo tiro que acertará em cheio sua carreira amanhã, fuzilando-a e a retirando do estrelato momentâneo. 

Jojo Todynho: modinha em forma de tiro
Por Marcelo Teixeira 


sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O universo do samba de Maria Rita

Sambas de Maria
Definitivamente dentro do universo do samba, como Joyce Moreno a descreveu em música, Maria Rita se consagra em um estilo único e próprio dela mesma, sem as amarras e caricaturas semelhantes às da mãe, Elis Regina, e sem o fantasma do estigma de que era uma cantora mediana graças ao talento de herdeiros. Sempre fui muito crítico com a carreira de Maria Rita, justamente porque ela não conseguia se desvencilhar da mãe e porque seus primeiros repertórios estavam fadados a ser um festival de continuidade na qual a mãe não conseguira cantar. Depois de muito tempo a cantora Maria Rita mostrou a que veio: uma verdadeira detentora do samba no século XXI. Não que seus primeiros discos sejam ruins, pois eles não o são, mas o fato de Maria estar cantando samba soa mais verdadeiro e genuíno de sua parte do que cantar músicas com roupagens fúnebres. Com lançamento oficial no dia de hoje,  Amor e Música (2018 / Universal Music / 35,00) é um dos melhores discos de samba da cantora e, de quebra, o melhor de toda a sua carreira e o fato disso acontecer é muito simples: Maria Rita, além de se consolidar no estilo do samba, conseguiu compreender que sua voz se enquadra melhor aqui do que nas canções ditas populares e intelectuais. Longe de ser uma intelectualizada na MPB, Maria já dava sinais de cansaço ao lançar discos sem graça e com apelo romantizado, coisa que não combinava em nada com seu estilo e que também não se assemelhava com o de sua mãe. Mesmo assim, La Rita vinha com trejeitos e nuances idênticos com as de Elis e isso dava a impressão de que não seria legal, que logo ela seria atacada de um monte de coisas e teria que mudar o revés do caso. Dei muitos pitacos em Maria Rita e depois que ela adentrou no universo do samba, muitas coisas aconteceram: a começar pela voz da cantora, que combina nítida e perfeitamente com o samba e dela trazer para esse ambiente cantores e compositores de outrora, misturando com os da atualidade. Com tudo isso, Maria Rita comprovou que é a detentora do samba, com bastante humildade e muita categoria. Mas tem uma coisa que me chamou a atenção nesse disco: a capa. E quem lê meus artigos desde o começo do meu ofício sabe que sou muito antenado com as capas (mesmo que muitas vezes o conteúdo seja mais significante). Primeiro que a cantora trouxe um ar da década de 1970 e 1980 com as letras no estilo medalhão de ouro e isso soa como uma nostalgia gostosa de ser lembrada e segundo porque a capa é de uma simplicidade sem igual, demonstrando que o pescoço da cantora, destoando a ideia de que sua voz é a maior potência de seu trabalho. Amor e Música mostra as diferentes gerações de compositores em diversos gêneros e a mistura agradável que isso proporcionou, como a parceria entre Arlindo Cruz e Davi Moraes, em Cara e Coragem. Não mais, a canção virou samba após Maria Rita perceber o potencial popular dela e Arlindo cair de cabeça na parceria, pois inicialmente a canção seria um blues.  Cadenciando no samba, La Rita transita entre as canções de amor às dores de saudade e o novo disco tem um fio nítido para a cantora: a faixa título, composta por Moraes Moreira no disco Cidadão em 1991, agora foi gravado em samba. A força de Maria Rita prova que a cantora se distanciou da imagem e semelhança da mãe, como sempre critiquei, e agora ela abocanha seu lugar no topo das verdadeiras cantoras da Música Popular Brasileira. O samba, hoje, pertence à Maria Rita!

 Amor e Música (2018) / Maria Rita
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Discos para ouvir: Novo Rumo - Glau Piva canta Caetano Júnior

Novo Rumo: a cara da MPB
O rumo da música popular brasileira não anda lá essas coisas há um certo tempo e é preciso garimpar muito para poder encontrar cantores que realmente salvam o estilo com músicas que elevam nossos sentimentos e nos fazem pensar a respeito da vida, do tempo, das coisas mais absortas. A prova mais cabal de que esse sentimento de renovação ainda existe é o CD Novo Rumo (2017 / Trattore / 23,99) em que a cantora Glau Piva canta Caetano Júnior. Sendo um dos mais belos CDs lançados no ano passado e um dos mais lindos e sentimentais que já ouvi em toda a minha vida, o CD ganha notoriedade pela força de expressão na voz de Glau e pela sutileza e habilidade nas canções de Caetano. A entrega total da cantora fez toda a diferença neste trabalho, pois sua voz casou perfeitamente com os recados anunciados nas canções como Novo Dia, Nuvem Branca ou Contraponto, em que há o ar de uma suavidade ímpar, tamanha a grandeza desse álbum. Totalizando 13 composições de Caetano Júnior (uma melhor que a outra, havendo uma sintonia total entre as faixas), Glau amarra com firmeza o uso de sua potente instrumentação primorosa com as letras bem delineadas de Caetano, que escapam do óbvio e, em uníssono, garantem um duelo de faixas inundas por um sentimento grandioso. Volátil em todas as estâncias e nuances do disco, o registro deste trabalho formidável transita por diferentes setores do cancioneio brasileiro, promovendo tanto músicas carregadas de um lirismo autoral quanto de um foolk abrasileirado ou de um sambinha moderno em ritmo jazzístico. Mesmo que a presença instrumental, letrada e poética de Caetano Júnior esteja por todos os cantos do trabalho (ele também está nos pianos), a voz de Glau é quem abocanha o resultado chamando as atenções para um desfiladeiro de músicas redondamente lindas e assimétricas. Mais do que figuras presentes nesse trabalho com a cara da música popular brasileira, os comandos dos dois grandiosos artistas ganham destaques mutuamente pelo conjunto da obra: a inteligência poética de Caetano que ganha letra, forma e música e cai como uma luva na voz cintilante de Glau, que rebate nos pianos e nos instrumentos focalizados no mais cristalino de sua voz. Há um elo de bola de neve que combina com o resultado harmonioso e que gira em torno da presença musical ricamente produzida por músicos de qualidade e competência primordial. Os elementos de outrora personificados pelas letras de Caetano dão à Glau Piva a interpretação romântica, excêntrica, melancolicamente louca e passivamente sensível dentro de suas capacidades e imaginações, com uma interpretação verdadeira de pura intensidade. A calmaria que prevalece em algumas faixas surge com a exaltação da música anterior, quebrando qualquer tipo de regra ou, na melhor das hipóteses, qualquer tipo possível de linearidade das canções.  O delinear apoio em distintos e afáveis campos da música acaba posicionando o ouvinte dentro de um variado universo sonoro, em que a transformação a cada audição acaba sendo uma somatória de musicalidade e novas interpretações, onde reconfigura suas lógicas de pensamento. Ou seja, você acaba ouvindo novamente as faixas e uma nova roupagem lhe vêm à mente.  Esse vasto conjunto de elementos, sons e fórmulas que delimitam todas as canções acabam por fim traduzindo a grandiosidade do registro de um dos melhores trabalhos feitos para e pela música popular brasileira, transformando Novo Rumo em uma parte intrínseca de um vasto e amplo momento musical.


Novo Rumo (2017) / Glau Piva canta Caetano Júnior
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Ano Luiz Melodia no MCB: o clássico Pérola Negra (1973)

Pérola Negra: clássico dos clássicos
Luiz Melodia é o grande homenageado do Mais Cultura Brasileira neste ano de 2018 (título que no ano passado foi de Marisa Monte) e durante todo esse ano será lembrado aqui e ali por músicas, composições ou álbuns importantes de sua carreira. O artista foi considerado um dos 100 mais influentes do cancioneiro nacional pelo conjunto da obra e suas músicas são referência para muitos cantores que estão inserindo nessa caminhada de fazer música do bem.  Pérola Negra (1973 / Phillips / 19,99) foi o primeiro disco lançado por Melodia, que teve direção musical de Péricles Albuquerque e que foi recebida mornamente na época. A gravação do álbum veio após o sucesso estrondoso das gravações de Gal Costa e Maria Bethânia em 1971 e 1972, respectivamente, das canções Pérola Negra – que dá nome ao título e até hoje é cantada ou reverenciada pelo nome – e Estácio Holly Estácio. Apesar do sucesso de crítica, o álbum não teve o mesmo êxito comercialmente. O disco mescla elementos de diversos elementos ao universo sambista que caracteriza as origens do artista e reflete influências de blues, rock, soul e até samba-canção, de um universo habitado por jazzistas e artistas que Melodia fora influenciado.  Porém, o álbum é famoso por conter uma participação especial do musico dito marginal Daminhão Experiença, que foi convidado para contribuir com o backing vocal na faixa Forró de Janeiro.  Pérola Negra traz dez faixas arranjada pelo violonista Pedrinho Albuquerque. Um solo de flauta de Canhoto, acompanhado por seu regional, dá a largada à eternidade de Melodia, no samba Estácio, Eu e Você, inspirado em Cartola. A segunda faixa já é um blues (e dos bons) Vale Quanto Pesa, em instrumentação acústica. O disco ainda tem o clássico Magrelinha, que anos depois se transformou em outra marca registrada do cantor e compositor carioca. Pérola Negra é o ápice do ápice da música popular brasileira e pude dizer isso pessoalmente ao Melodia em um encontro que tivemos na Avenida Paulista no ano de 2016, quando ele já estava sentindo algumas dores lombares (coisa que a mídia ainda não sabia). Há estética, há beleza, há samba, há blues, há a voz de Melodia estrondando tudo e a todos. Todas as suas obras são e serão reforçadas pela tese de que o começo foi aqui, em 1973, com este emblemático disco que, anos e anos mais tarde, foi incluído na posição 32 na lista dos 100 maiores discos da música popular brasileira pela conceituada Revista Rolling Stone Brasil.


Pérola Negra (1973) / Luiz Melodia
Por Marcelo Teixeira

domingo, 7 de janeiro de 2018

Discos para esquecer: Ana Vilela e seu Trem-Bala (2017)

Vilela e um disco morto
Considerada por dez entre dez pessoas como sendo a cantora do ano de 2017 e por três entre dez pelos críticos de música como uma cantora nonsense no cenário popular brasileiro, a cantora e compositora Ana Vilela surgiu do mundo da mídia esporádica (aquela que te levanta a moral, mas logo te trás para o planeta Terra) e foi alçada ao mundo do showbizz da mesma forma como uma Elis Regina ou Gal Costa surgiram na década de 1960 com seus estilos competentes e dotes artísticos. Mas há uma diferença gritante e relevante nessa minha comparação pífia: Elis e Gal batalharam para serem reconhecidas como cantoras profissionais e utilizaram a voz para mostrar algum talento (coisa que até hoje, no século 21, ambas conseguem ter), enquanto que Ana precisou das mídias para se autopromover. Há algo de errado nisso? Obviamente que não, mas se levarmos em conta que Elis e Gal não eram compositoras e que ralaram muito para provar algum talento, disso ninguém pode duvidar. O mundo de hoje é formado por bestas digitais (Umberto Eco poderia nos explicar isso melhor) e com tantas coisas correndo contra o relógio, eis que as gravadoras não estão mais se importando com aquilo que é vindo da internet. Algumas poucas cantoras surgiram dali e dali estão voltando para o esquecimento, enquanto outras, verdadeiramente genuínos no seu perfil de cantoras e cantores, batalharam por uma gravadora que lhes dessem suporte artísticos para poder mostrar um pouco de suas músicas e qualidades. Ainda que algumas cantoras surgissem de gravadoras, como os casos de Ana Carolina, Maria Gadú ou Maria Rita, as mesmas se encontram sumidas da grande mídia, sem discos lançados ou, quando lançados, quase ninguém presta atenção. Ana Vilela está nesse nicho chamado famosidades instantâneas, que logo voltará de onde saiu: a internet. Se sua música Trem-Bala foi uma apoteose no ano passado, com participação até de Luan Santana, seu disco passou desapercebido pelo grande público, mesmo com a famosa música O Leãozinho, composta por Caetano Veloso para o disco Bicho (1977). Muitos sequer sabiam que ela tinha lançado um álbum com treze faixas. Outros nem sabiam que Ana Vilela era a detentora da canção Trem-Bala. O disco nasceu morto, ficou morto e morreu sem enterrar, porque assim é a mídia do caos, como diz na canção do cantor mineiro Luiz Marques (2009) e que acaba sendo um manifesto contra a mídia especializada em notícias ruins e nas pessoas que insistem em ficar atentas, antenadas, sublinhadas neste caos chamado internet, mídia digital e afins. A música de Luiz Marques se iguala com a música Senhas, de Adriana Calcanhotto (1992) em que diz eu não gosto do bom gosto. Ana fez muitas pessoas chorarem pelos cantos do país, mas e o resto do disco, por que ninguém comenta suas outras canções? Por que a mesma mídia que a elencou não mostra as outras faixas? A resposta é simples: não há o que escutar. Trem-Bala (2017 / 22,99) já é o suficiente para que Ana Vilela nos sufoque com suas músicas de uma única estação. Mas há uma boa notícia nisso tudo: Ana Vilela fala de amor e de igualdade em suas músicas e mesmo que Trem-Bala seja uma falácia contra o moralismo radicalizado nas pessoas, a canção passa um ar de mentira, de ilusão, de sonhos inexistentes ao mundo atual e, com isso, retornemos à Mídia do Caos de Luiz Marques e as Senhas, de Adriana Calcanhotto, que são mais verdadeiras que a música blasé de Ana Vilela.


Discos para esquecer: Ana Vilela e seu Trem-Bala
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Os bichos de Caetano Veloso (1977)

Os bichos de Cae
Havia vida inteligente na década de 1970 e Caetano Veloso se destaca ainda mais nessa seara musical que tanto fazia seus concorrentes a produzirem mais músicas de qualidade.  A vasta criatividade intelectual de Caetano estava tão aflorada em 1977, que seria impossível não produzir um disco sensacional como Bicho (1977 / Phillips / 21,99) e vale dizer que esse disco trouxe uma das sequências musicais mais emblemáticas da MPB, pois Odara possui um ritmo dançante e frenético em seus quase sete minutos de duração e ainda hoje e já no século vinte e um, a música é referência na discografia do cantor. Sendo um dos discos menos lembrados da carreira, mas curiosamente, o disco que tem um festival de canções cantadas por muitos até hoje, Bicho trouxe na bagagem canções com Um Índio, Tigresa, Gente, Leãozinho.  Tigresa é uma bela homenagem à Sônia Braga e Zezé Motta, duas das inspirações de Caetano naquela época e que tem belas poesias embaladas por um violão elegante.  Para registrar Bicho, Caetano se cercou de um time de excelentes músicos que contribuíram para com a estética do disco, que traz altos arranjos e elaborados artistas. Se hoje vemos Anitta reverenciar as comunidades cariocas, Caetano já o fazia isso e com muita intelectualidade, representando uma pegada forte, dançante e atemporal, que era a proposta de Bicho, como a nova favela brasileira, pois Caetano queria lançar um disco especialmente para as pessoas mais carentes dos subúrbios. O resultado é um disco extremamente culto, refinado, dançante, popular e com a cara tanto do rico quanto do pobre.  Além das músicas e letras, Caetano também assina a capa do disco, com a borboleta, o sol, a lua em fundo branco e a palavra bicho, uma gíria muito comum usada entre os músicos na época. Reitero: esse é um dos melhores e mais completos discos de Caetano Veloso.


Bicho (1977) / Caetano Veloso
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Elis Regina 70 anos - box com quatro discos indispensáveis

Elis: atemporal ao tempo
Lançado originalmente em 2014, a caixa Elis Regina 70 Anos ($149,90/2014) contendo quatro discos da carreira meteórica de Elis Regina (1945 – 1982) se faz presente em um momento conturbado da música popular brasileira e é por esse mesmo motivo que abro 2018, quatro anos depois desse lançamento, para poder elencar a imagem e semelhança da cantora. Se no ano passado tivemos tantos desperdícios musicais e tantas vozes desestruturadas com linguagens estranhas e desafinadas, ouvir uma música sequer do cancioneiro de Elis já é o bastante para lubrificar a mente a alma daqueles amantes da incultura nacional. A caixa nos proporciona momentos sensacionais de sua obra inquietante, como, por exemplo, o CD Saudades do Brasil (1980) e o emblemático e sutil Essa Mulher (1979). Em sua breve passagem pela Warner no final dos anos 1970, pouco antes de sua morte, Elis deixou registrados dois álbuns fundamentais em sua discografia: Essa Mulher tem um lado de empoderamento feminino, coisa que Elis já instaurara nos anos de 1979 e Saudades do Brasil, um disco político e emblemático que exaltava a dramaticidade da cantora e que agora retornam ao catalogo com áudios remasterizados e capas, contracapas, encartes e rótulos originais. Completando o primeiro póstumo da cantora – o disco Ao Vivo em Montreux, lançado originalmente pela Warner em 1982. Revisitar a obra de Elis Regina aqui e ali é sempre um prazer, mesmo que em tempos atuais e complexos como os de hoje.



Elis Regina 70 Anos / Elis Regina

Por Marcelo Teixeira





quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

O amor e a liberdade de Olívia Gênesi em disco esplêndido

Olívia: o floral da música brasileira
Entre tantos arroubos curvados e acertos escondidos, a cantora, compositora, arranjadora, instrumentista e produtora musical Olívia Gênesi lançou seu décimo trabalho autoral em meio a chuvas de tempestades, de ciclones musicais adversos amarelados e momentos políticos arranhados. Se de um lado tivemos o ano inteiro de 2017 ao som de cantoras com vozes arrastadas como Ana Vilela e descobertas insossas como Pabllo Vittar, por outro os amantes da boa música popular brasileira puderam ter a oportunidade de desvendar certos acertos escondidos como o CD Amor e Liberdade (2017), que vêm recheadas de músicas com as características de Olívia: o amor, o folk, o jazz e o pop. Todos esses ingredientes refinados e com excelente bom gosto. E o disco veio em boa hora, pois a cantora está comemorando 17 anos de carreira com 10 discos lançados. Impossível não ouvir esse disco e não se encantar com a poesia moderna e fulminante recheadas com um lirismo pleno ao som de canções marcantes como a sensacional Amores Líquidos, que tem muito do sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925 – 2017), pois esse também era o título de um de seus famosos livros – e de quem sou fã. A sintonia musical recria a sensação de que estamos a salvo das amarras venenosas musicais existentes por aí e que Olívia faz questão de se afastar totalmente com este belo CD, simples, harmonioso, sensato e amoroso. É um tiro de sensações libertas sobre a liberdade de expressão, a livre espontaneidade de circulação e a plena vontade de estar vivo. Suas músicas estão mais atuais do que nunca e a prova disso está na sensacional música O amor vai brotar, que traduz uma absorvente transposição de diferentes experimentos com a intencionalidade química do tempo. A versatilidade da cantora é impressionantemente surreal e nos capacita ao seu mundo imediatamente após as primeiras notas da abertura desse novo álbum, o que fica claro e evidente que o disco te pega de supetão já no início, sem tempo para respirar e piscar. Com uma grandiosidade enorme, a cantora surge em um momento atípico para com o Brasil e Amor e Liberdade é um balde de sensações térmicas amorosas e libertárias em pleno final de ano. Vale a pena ouvir detalhadamente essa obra prima e repetir incansavelmente faixa a faixa. Assim você terá a certeza absoluta de que está no país certo e ouvindo uma das melhores cantoras deste século. Viva a música popular brasileira!


O amor e a liberdade de Olívia Gênesi / Olívia Gênesi
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Kell Smith: a cantora que nasceu errada

Kell: sucessão de erros 
Kell Smith surgiu como um desses meteoros que vem sendo preparado aos poucos e sem grandes pretensões e que quando caem no solo, eclodem com um barulho ensurdecedor.  A cantora e compositora não saiu de um desses programinhas que ficam à procura de novos (e chatos) talentos, nem foi reconhecida por um grande empresário, mas apareceu na arma mais poderosa dos últimos anos: a internet. Graças às redes sociais que sua música chegou ao topo mais elevado para uma posição considerável na mídia: o ouvinte. Mesmo sendo uma dessas cantoras surgidas aqui e ali, Kell precisa aprender uma coisa: ela não é a única e pode ser que esteja de passagem. Sua música está entre as mais tocadas nos últimos tempos e já foi gravada até por Chitãozinho e Xororó e hoje está entre as queridinhas da maior rede televisiva do Brasil. Mas se ela continuar com o pensamento de que essa sua única canção vai lhe dar todos os atributos benéficos que as redes sociais lhe deram, essas mesmas redes sociais podem lhe tirar o troféu que já fora de Maria Gadú e Ana Vilela. Maria Gadú foi descoberta por um grande diretor dessa mesma emissora, lançou os dois primeiros discos memoráveis e só. Já Ana Vilela apareceu na mesma onda de Kell: compôs uma canção manjadamente popular e apelativa e se lançou na internet. As redes sociais, grande amiga dos artistas anônimos, favoreceu com que Ana fosse uma celebridade momentânea e com apenas uma única canção, diferentemente de Gadú, que lançou outros discos, mas sem grande visibilidade da imprensa. Kell Smith está indo pelo mesmo caminho de Gadú e Vilela, mas com um tempero salgado a mais: ela tem a mesma entonação de voz de Gadú e compõe com o mesmo apelo sensacionalista e popularesco que Vilela. Isso se torna uma grande chatice e não há nada de novidade, sendo assim, a não ser que apareceu mais uma cantora nonsense e blasé para mostrar seu trabalho. Se Ana Vilela ficou meses e meses a fio com uma música que fala de sentimentos e barreiras amorosas e ganhou todas as notoriedades possíveis e imagináveis e Gadú enveredou-se inicialmente pelo mesmo caminho, mas resolveu ir para o lado esquerdo do tempo e, com isso, ganhou menos espaço, Kell Smith é a junção entre as duas outras cantoras, mas não menos talentosa. Eis aqui uma grande preocupação, pois Kell Smith quer mostrar suas canções como se essas fossem relatos de um sentimento mal resolvido. E isso causa um grande alvoroço (Ana Vilela talvez explique!). Gosto da Maria Gadú – embora eu tenha ciclos sentimentais para tal – mas não ouso gostar de Ana Vilela (e não sei explicar bem isso, talvez eu precise ouvir umas novas canções) e tenho quase que noventa cento de certeza de que não gosto e não vou gostar de Kell Smith. A começar, a cantora poderia vir com um nome e um sobrenome mais abrasileirado e, segundo, não vejo verdades em suas letras e muito menos em suas interpretações coreografadas entre mãos, boca, semblante e olhos fechados. Mesmo com uma música com apelo popular emblemática, Kell pode vir a se tornar uma Maria Gadú com semelhanças visíveis à Ana Vilela. O tropeço pode ser grande caso a cantora resolva ficar com essas semelhanças entre a divisão de atenções vocais e sentimentais entre uma cantora e outra. Mas o que se sabe de verdade é que Kell Smith está no meio entre uma cantora de verdade e uma aspirante à tal.



Kell Smith: a cantora que nasceu errada
Por Marcelo Teixeira

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Pabllo Vittar: a pior voz do Brasil

Pabllo: sem voz 
Ouvi dizer por aí que Pabllo Vittar foi considerado o artista do ano de 2017. Ouvir dizer é uma coisa tão balela quanto superficial. Difícil mesmo é ter a comprovação de que Pabllo de fato é o artista do ano de 2017, com tantos outros artistas consideravelmente melhores que ele. Sendo o tal artista do ano, presumivelmente você esquece de que Chico Buarque e Olívia Gênesi lançaram CDs tão ou mais bonitos de 2017, que Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown voltaram com os Tribalistas em um dos melhores momentos do trio, que Joyce Moreno lançou aqui no Brasil, na Europa, na América e no Japão um CD sofisticado com a cara da Nação e que Caetano Veloso relançou Verdade Tropical com um capítulo extra sobre Carmen Miranda. Mas Pabllo Vittar foi considerado o Artista do Ano de 2017 e o que isso quer dizer? Que somos otários ou que as pessoas que o ouve são estranhas? Não vou discutir aqui a questão da diversidade cultural, da pluralidade e dos gêneros (deixo isso para a minha graduação em Pedagogia e pelo meu lado educador), mas ter que aceitar que Pabllo (a repetição desse nome me causa alvoroço nos dias de hoje) é uma aberração capaz de nos ausentar das culturas musicais do país. A começar, Pabllo não canta absolutamente nada, tem uma voz anasalada, esdrúxula, tapada e é desengonçado no palco, sem ter uma potência qualquer. Virou artista para ter uma visibilidade perante as questões de luta contra o preconceito ou o movimento LGBT. Sendo meio contraditório, ainda não entendi muito bem quem esteve por trás dessas votações que o elegeram como a melhor voz do ano e muito menos quem incentivou e bancou a carreira desse pseudoartista.  Até onde se sabe, a cantora Anitta é a madrinha oficial e intangível de Pabllo, ou seja, o escroto revelando a sarjeta. De Preta Gil a Toni Garrido e passando por vários estilos musicais, Pabllo esteve notoriamente bem veiculado na mídia, bem assessorado por quem se diz entender de música e bem mal intencionado perante o público mais civilizado e/ou eclético. Não podemos discordar de que Pabllo foi a voz mais cantada e ouvida e comentada do ano, mas ser considerado o artista do ano é um pouco demais para ouvidos sensíveis e sensatos. Dá-se a impressão de que todos pararam para ouvir sua voz de pato purific ou de fazer a família brasileira entender perfeitamente que ele é um homem, mas se veste de mulher e está montado o espetáculo dos horrores das perucas coloridas. Dá-se a impressão de que em 2017 existiram apenas Anitta, Pabllo, Marília Mendonça, Luan Santana e não mais chicos, caetanos, miltons, anas, tiagos. Tiago Iorc foi tão mais aclamado e idolatrado do que Pabllo e nem por isso precisou provar que era esdrúxulo. Outros artistas dessa categoria, como Liniker e Jonny Hoocker, que mesmo eu criticando perante o excesso de vestimentas e estilos estereotipados, são muito mais artistas que Pabllo e muito menos visíveis no mercado fonográfico. Pabllo é um neocantor que foi criado para ser exemplo de vexatória para todos nós, amantes da música popular brasileira. O espaço assentido dentro de cada estilo é benéfico para todos os artistas que possam demonstrar seus atributos culturais, mas ser tão estranho e espalhafatoso como Pabllo não há igual. Se há um prêmio para receber e merecer, esse prêmio é os piores do ano de 2017 pelo conjunto da obra: Pabllo assusta vocalmente, assusta musicalmente, assusta pelo simples fato de não falar nada. Suas músicas em nada acrescentam em nossas vidas e sua postura de cantor que defende uma causa não pode ser considerada uma prova cabal de que ele lutou por esses direitos. Definitivamente, são várias causas perdidas e os fãs de Pabllo se viram protagonistas de suas caminhadas, como uma salvação de libertação das amarras do povo que queria ver a massificação de um gênero. No dia em que esse cantor receber um prêmio de qualidade cultural pelo conjunto de sua obra, poderemos nos ajoelhar e pedir sua benção. Por hora, o que podemos fazer são duas coisas: tapar os ouvidos e virarmos as costas.



Pabllo Vittar: a pior voz do Brasil
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Anitta: vedete, cantora, medíocre

Anitta: voz do funk?
A bestialidade é a condição de quem ou daquilo que é bestial, temendo um comportamento que assemelha o homem e  mulher à besta com uma brutalidade ou imoralidade perceptível. Não podemos negar que Anitta seja um furacão estrondoso com uma potência relevância dentro da MPB, mas dizer que ela é a maior cantora com nível de voz acentuado e um pouco de sensatez dentro da música popular é incoerente aos padrões estéticos musicais vigentes. Não podemos, reitero também, menosprezar o tamanho de sua importância e valor perante seus milhões de fãs pelo agora mundo afora, mas é preciso respeitar os limites éticos e políticos que a pluralidade e a transversalidade exigem. Anitta voltou ao topo da parada de sucesso com um meteoro estilístico que marcou sua entrada no mundo das vedetes e cantoras e outras medíocres artistas que polarizam nossas mentes e reações. Anitta encabeça todas essas qualidades: é vedete, é cantora, mas também é medíocre. Seu mais recente sucesso, Vai Malandra, nada mais é que um tiro no peito do cidadão brasileiro que adere às políticas da boa vizinhança quando diz respeito aos valores morais da constituição musical. Não que a música tenha que ter um certo limite ou uma compreensão da filosofia dentro do contexto social e antropológico, mas a música e, principalmente, o clipe, são uma afrontosa negligência aos apelos civilizados de pessoas que lutaram anos e anos a fio por uma contra censura monopolizada e que hoje recebem bem na sua cara uma chuvarada de bundas e peitos e homens e mulheres pelados. Com ou sem silicone, o que mais se vê nesse clipe é a apologia ao sexo gratuito, à vulgaridade explícita, ao papel cafajeste do homem do morro e da mulher que usa cabelos estilo rastafári para poder se impor como mulher de respeito ou, em outras palavras, mulher de malandro. Está nitidamente claro e evidente que Anitta não voltou ao mundo do funk apenas por voltar: tem um contexto social e político da própria cantora acerca desse movimento. Anitta não criou o funk brasileiro e nem é detentora do estilo. Anitta não resgatou o funk e muito menos será coroada a rainha funkeira do morro e da comunidade, mas a música deixa em destaque que a mulher precisa de um empoderamento perante a sociedade para exigir respeito.O respeito por meio da bunda, dos glúteos siliconados ou não e do peitão à mostra. Enquanto Elza Soares (A Mulher do Fim do Mundo, 2016) veio com um disco sensacional em prol da luta pelas mulheres, pelos negros e pelos esfarrapados, Anitta surge com uma música que extrapola os limites da selvageria imoral ao abordar o mesmo tema. Gosto da Anitta e a respeito como cantora, como mulher e artista que és, mas não posso me curvar diante tanta insensatez imoral para poder se autorretratar perante uma canção que mostra glúteos deformados, partes pélvicas suadas e cabelos oxigenados mostrando que a periferia tem voz e vez. Lembremos que a comunidade precisa ter voz e vez, mas não com um festival de imbecilidade assistida como esse clipe de Vai Malandra. Enquanto a comunidade e o funk lutarem por uma democracia de igualdade e equidade sem mostrar seus dotes corpóreos, estaremos falando a mesma língua para uma emancipação da sociedade. Mas enquanto estiverem lutando em prol de glúteos, o movimento e a comunidade retratada perdem seus direitos pela tal igualdade e por uma tal de equidade.


Anitta: vedete, cantora, medíocre
Por Marcelo Teixeira

domingo, 10 de dezembro de 2017

A "zuera" de João Bosco é coisa séria

O bom e velho João Bosco 
Acabo de ouvir pela terceira vez o novo e arrebatador disco de inéditas de João Bosco, depois de um hiato de oito anos sem lançar nada novo. Mano que zuera (2017 / Som Livre / 26,99) é um disco composto por 11 ótimas canções (e que acaba sendo melhor e mais preparado que o tão aguardado disco de Chico BuarqueCaravanas / 2017) e entre elas estão algumas parcerias inéditas com o filho Francisco Bosco, que também assina a produção musical de todo o álbum. Dessas parcerias o single Onde Estiver, que nasceu de conversas entre pai e filho, merece destaque pela força poética e arranjo primoroso, que já toca nas principais rádios do Brasil. Além das inúmeras parcerias com o filho, o projeto conta com clássico como Sinhá, parceria com Chico Buarque e gravada no penúltimo álbum deste, Chico (2011) retomando o dueto entre ambos depois de um estrondoso espaço de tempo, quando gravaram juntos uma música em destaque para o lançamento de um disco buarquiano de 1984. Duro na queda e João do pulo (parcerias com o inesgotável Aldir Blanc) soam memoráveis, ainda mais porque esta última música conta com uma fusão sonora com a canção Clube da Esquina Numero 2. O encontro inédito com a composição de Arnaldo Antunes em Ultraleve, onde a filha Júlia Bosco (que não merece tanto destaque assim pelo conjunto da obra) faz uma participação especial com sua voz com sabor de liquidificador, como diria Cazuza. Sim, Mano que zuera é um clássico da MPB, nasceu com direito a explosão meteórico e veio para confirmar a marca tradicional de Bosco como um dos compositores e cantores mais versáteis da linha refinada da Música Popular Brasileira.


João Bosco / Mano Que Zuera (2017)
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sábado, 9 de dezembro de 2017

Vânia Bastos lança o clipe Lamentos (2017)

Vânia: elogiada entre as elogiadas
A cantora Vânia Bastos lança videoclipe do elogiadíssimo disco Concerto para Pixinguinha, pela VEVO Brasil e inaugura seu canal oficial no Youtube, que aconteceu no dia 7 último. Baseado na parte mais elogiada de sua turnê, Concerto para Pixinguinha foi tão aclamado que no canal recém-inaugurado da cantora o clipe já é o mais visto de todos. A canção do clipe é Lamentos, música composta por Pixinguinha que, anos depois, ganhou letra de Vinicius de Moraes e faz parte do álbum de Vânia, lançado em 2016. Destaque de público e mídia especializada, figurando nas listas de melhores discos do ano. Lamentos chega ao vídeo com a direção do premiado cineasta Pedro Jorge – autor de Diamante, O Bailarina, que percorreu uma série de festivais nacionais e internacionais, ganhando evidência na grande imprensa. O álbum foi o vencedor do Prêmio Profissionais da Música 2017, além de estar na estrada desde 2013, rodando diferentes pontos do Brasil. Foram mais de 60 apresentações de sucesso absoluto.

Link do clipe que entrou no ar na quinta-feira, 07 de dezembro, pela VEVO Brasil:


Vânia Bastos / Lamentos
Por Petterson Mello e Marcelo Teixeira



sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A transformação de Eliana Printes em delicioso álbum de 2013

O disco: transição com o Brasil
A voz cintilante de Eliana Printes foi reconhecida nacionalmente quando ela interpretou maravilhosamente a canção Só vou gostar de quem gosta de mim, canção imortalizada na voz de Roberto Carlos nos anos 1980 e que estava no excelente álbum Pra lua tocar (2000). Transcorridos mais de quinze anos após esse lançamento, a cantora voltou a se radicar e a se dedicar ao Norte do país, onde faz festa entre seus nativos e é conclamada como rainha da música popular brasileira. Pudera: Eliana Printes é um poço de simpatia, uma riqueza em pessoa e tem uma voz cintilantemente pura, cristalina e purificada. Seus discos são tão bonitos e bem acabados, que fica impossível não elencar a sua carreira como a de uma verdadeira dama da MPB. Tudo em Movimento (2013) é o oitavo disco da cantora e que foi lançado em Manaus com tamanha festa, que passou despercebido por outros cantos do Brasil e que mesmo assim não perdera seu brilhantismo e sua importância. Seguindo uma tradição que se mantém há anos, a cantora fez de Manaus a sua primeira parada para todas as turnês de divulgação de cada disco e o Teatro Amazonas é a sua casa, seu refúgio e seu porto seguro. Mesmo sendo radicada no Rio de Janeiro, Eliana consegue se manter fiel às suas tradições e se impõe a cada dia como uma típica cantora que não se rotula e que não se propaga para ser tal. Produzido por Adonay Pereira e Julinho Teixeira, em parceria com a Indie Records e com distribuição nacional da Universal Music, Tudo em Movimento tem dez faixas que se entrelaçam. A ideia central do disco, expressamente dita no título, tem a ver com as mudanças que estavam acontecendo no país àquela época. A exemplo de seus predecessores, o disco teve participações para lá de especiais, como o falecido cantor Luiz Melodia, que divide os vocais em Congênito (autoria de Melô) e da cantora carioca Isabella Taviani, em Se tudo pode acontecer.  Outra participação especial do álbum aparece em La Condessa, composição de Ribamar Vaiz, Ricardo Bezerra e Soares Brandão. O registro dessa música foi feita na Alemanha, reforçando a tese de que o disco merece destaque.  Mas por que esse crítico de música veio nos mostrar apenas isso hoje, transcorridos quatro anos de seu lançamento? Por um motivo muito simples: os discos de Eliana Printes raramente chegam à São Paulo com pompas das grandes estrelas e para encontrá-los é preciso gabaritar muito. Encontrei esse disco em uma loja na zona Central de São Paulo e era peça única. Não hesitei em comprar. Mas não fique triste: se você não encontrar, poderá ouvir na internet algumas de suas belas faixas.

Eliana Printes / Tudo em Movimento (2013)
Nota 10
Por Marcelo Teixeira


domingo, 19 de novembro de 2017

Lulu Santos tenta homenagear Rita Lee sem homenagens


Lulu: disco sem homenagem
Ainda tento entender o que acontece com a carreira de Lulu Santos: além de ser fantoche em um programa musical da maior emissora do país, o pop star vêm na onda das regravações que, como ele mesmo sugere, são homenagens aos artistas ainda vivo. Há quem goste e há os que discordam desse estilo de se fazer música e eu fico com a segunda opção quando tudo não passa de produto mercadológico e fonográfico para camuflar as ideias inexistentes. Aconteceu com Roberto Carlos em uma homenagem pífia, sem deslumbramentos e sem achados convenientes e agora volta a acontecer com a eterna rainha do rock nacional, Rita Lee, que reuniu a família para ouvir o tão esperado disco em sua finita homenagem. Não, definitivamente, não valeram os choros compulsivos de Rita para Lulu, pois o disco não passou de um disquinho que logo mais será esquecido em uma gaveta dos fundos, um baú qualquer despedaçado ou em mentes pouco equilibradas. Seria o fim de carreira de Lulu Santos ou apenas uma passagem fantasmagórica de insana desmemoria? Não vou aqui dizer que Lulu não fora importante para a música popular brasileira porque eu estaria veementemente mentindo, afinal, o cantor é considerado um ícone dos anos 1980 e brilhou diversas vezes nos anos 1990 e 2000, mas sua demanda popular não anda tão boa assim, dito pelas passagens televisivas atuais e por sua retórica blindagem se achando o tal. Com tantos erros atribuídos à sua imagem musical, Lulu não soube aproveitar o momento sublime de mais uma homenagem a uma grande artista da nossa música. Perdeu-se a chance de mostrar o quão valioso e potente é sua voz, o quanto é importante o momento da homenagem e como é suntuosa a parceria de harmonização entre a homenagem a homenageada. Lulu, o eterno jovenzinho do rock, com seus cabelos ora vermelhos ora brancos e com chapéus e terninhos modernos, não convenceu em nada nessa chinfrim homenagem retorcida em disco. Não há garantias de que o disco venha a ser o melhor de suas homenagens, pois nem para Roberto Carlos ele o fez. Homenagem à altura de Rita foi a que a cantora Ná Ozzetti fizera em 1995, com o LoveLeeRitta, com harmonias diferentes, delicadeza na voz, repertório bem caprichado e a beleza que Rita deixou em suas melodias. Lulu parece que esqueceu de alguns detalhes pormenores, correu para gravar, não estudou as letras e jorrou um disquinho com uma capa retro e com pedaços de décadas retorcidas.


Lulu Santos canta Rita Lee (2017)
Nota 4
Por Marcelo Teixeira 

domingo, 12 de novembro de 2017

MC Livinho e a voz que ninguém deveria ouvir

Livinho e  voz que ninguém merece
Longe de ser um grande astro da música popular brasileira e de ser estrela da consolidação do pagode, MC Livinho tenta ser um cantor com popularidade exemplar em território nacional. Sem poder de vocalização e sussurrando suas melodiosas canções, o cantor agora tenta unir sua imagem ao pagode e indo de encontro com o rei dos magos pagodeiros, Péricles. Óbvio que essa união não sairia bem, ainda mais tendo uma desunião de vozes como as de Livinho, que é paupérrima e cansativa e arrastada. Péricles tem uma das melhores vozes do pagode e se consagrou no estilo há anos com sua marcante e impressionante presença de palco, mas o colocar em evidência com um cantor que não se iguala ao seu tipo vocal, chega a ser uma aberração aos nossos ouvidos. Mesmo a música Bandida tendo estrondosos 4 milhões de acesso, a música não vale ser ouvida e não garante sucesso para nenhum dos dois. O motivo é simples: a música é chata e, como já disse acima, MC Livinho não canta absolutamente nada, tendo uma voz arrastada e chata. Vale ressaltar que MC Livinho carrega umas broncas do público por outros motivos: uma por ser considerado homofóbico (o que ele desmente e outros dizem que foram os administradores de redes sociais que inventaram a desculpa) e outro puxão de orelha após o cantor lançar a estranha música, em agosto recente, Covardia. Lembrando que a música é acusada de ser apologia ao estupro, coisa que o cantor nega veementemente. Com teor de baixo calão, humilhando e rebaixando a mulher à pior espécie, Livinho tentou se retratar perante o caso, mas de nada adiantou. O cantor apenas carrega mais uma polêmica nas costas e, música de qualidade que é bom, nada. Por hora, MC Livinho é o lixinho musical que todos aplaudem, mas ninguém entende!


MC Livinho e a voz que ninguém deveria ouvir
Por Marcelo Teixeira

sábado, 11 de novembro de 2017

O delicado álbum de Wanda Sá

Wanda: expoente da Bossa Nova
Uma das mais expoentes expressões da Bossa Nova, a cantora Wanda Sá é referência de musicalidade reconhecida mais no exterior do que no próprio país de origem e, para ela, o grande êxito do gênero foi o fenômeno que o estilo bossa novista trouxe de renovação na década de 1960 e que teve, de fato, um valor sistemático e assentido mais outros países do que no Brasil. Apaixonada pela música e pelos amigos que fez ao longo de sua carreira, a cantora norteou um novo trabalho, que passou praticamente despercebido do grande público e por parte dos jornalistas e críticos de música. Cá entre nós (R$27,99 / 2016) é um disco que nos remete ao ano de 1972, pois ele reverencia todo os momentos pelas quais a cantora vivenciou e dos amigos que angariou, como Roberto Menescal, Marcos Valle, Tom Jobim. Por falar em Tom, Wanda pincelou uma preciosidade do cancioneiro do maestro com o poeta Vinicius de Moraes e achou a deliciosa Cala, meu amor, música desconhecida de ambos os músicos. A ideia era reunir canções inéditas de parceiros como o amigo Roberto Menescal, João Donato, Carlinhos Lyra e Nelson Motta, mas além de conseguir juntar essa galera, Wanda trouxe para o celeiro convidados que até então não faziam parte de seu rol musical, como o cantor e compositor Ivan Lins, Chico Batera, Nelson Faria e Ricardo Silveira. Trata-se de um disco refinado, culto, bossa novista e cheio de saudade de um tempo que ficou apenas na lembrança.


Cá entre nós (2016) / Wanda Sá
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Verdade Tropical - 20 anos depois

Leitura obrigatória
Leitura mais que obrigatória para todos os amantes e não amantes da boa música brasileira, o livro Verdade Tropical acaba de ser relançada por Caetano Veloso com uma capa nova (não menos bonita que a edição de bolso, mas com certeza mais bonita que a primeira versão) e com um capítulo bônus intitulado Carmen Miranda não sabia sambar. Trata-se de uma conversa sobre esses 20 anos que nos separam da primeira edição, construída a partir do próprio livro e das suas repercussões. Eis aqui um novo retrato de Caetano acerca do mundo da música e para dizer também que o mundo mudou. As questões cruciais de sua vida e de suas angústias diante das dores do mundo também se fazem presente. Caetano é um grande leitor de livros e grande homem de erudição. O novo texto pode até surpreender os que só o têm como um artista da canção popular, jamais os que acompanham de perto a sua trajetória. A singularidade que enxerga no Brasil e em seu destino como nação permanece de pé, a despeito de tudo o que estamos testemunhando nos últimos tempos. Embora eu particularmente ache o livro Verdade Tropical extenso, cansativo por vezes e arrastado em uma profusão de palavras difíceis, deixo aqui registrado que o livro é, na verdade, uma síntese da biografia do próprio Caetano perante sua carreira tropical, musical e intelectual. Porém, foi aqui neste livro que pude ter a honra de conhecer um dos intelectuais que mais influenciaram minha carreira pedagógica e intelectual, como o escritor Edgar Morin ou o artista multifacetado e original Hélio Oiticica. Assim como há passagens engraçadas, como o caso da cantora Gal Costa cantar por intermédio de uma panela ou a rixa entre o próprio Caetano e Roberto Carlos, a quem Maria Bethânia já era fã. Mas não comprem o livro apenas porque há um capítulo maravilhosamente extraordinário como bônus ou pela nova capa tropical do cantor. O livro é para ser lido por inteiro. Parafraseando Adriana Calcanhotto, é preciso devorá-lo (como canta na música Vamos Comer Caetano). Muito bem escrito, há aqui uma formação humanística impressionante, capaz de nos impressionar do primeiro ao último capítulo. O relançamento de Verdade Tropical coincide com os 50 anos do Tropicalismo, cujo é um dos temas centrais do livro.


Verdade Tropical – 20 anos depois
Nota 10
Por Marcelo Teixeira