sábado, 3 de dezembro de 2016

Os encontros e as despedidas de Milton Nascimento


A mudança de Milton em 1985
Os anos de 1984 e 1985 foram especialmente intensos para Milton Nascimento. Além de entrar de corpo e alma na campanha pelas eleições diretas para presidente, chegando a compor duas músicas – Coração de Estudante e Menestrel das Alagoas – que seriam cantadas em todos os comícios em praça pública, transformando-se em verdadeiros hinos de liberdade, Milton curou a decepção pela derrota da emenda das diretas no Congresso Nacional com o apoio à candidatura de Tancredo Neves à presidência. Abalado com a morte de Tancredo e vendo o país chorar a morte de seu filho querido, Milton resolvera mudar os ares de sua vida por completo: além de se mudar de Belo Horizonte para Rio de Janeiro, ele já se sentia mais confortável como pessoa e artista, pois era mais valorizado  e respeitado por dentre entre dez artistas mundiais. Por esse mesmo motivo, o cantor e compositor carioca sentiu-se à vontade para fazer o que bem quisesse no ano de 1985 e, para seu bel-prazer, inpirou-se em seus sentimentalismos para desfilar um fiandeiro de músicas emotivas e sensatas para o belo disco Encontros e Despedidas (1985 / Phillips) 19,00), que tem uma ancestralidade e uma africanidade incrível. No início de carreira, Milton assinou a melodia, mas também as letras de várias canções – Canção do Sol e Morro Velho talvez sejam os melhores exemplos de seu talento como letrista. À medida que foi encontrando os parceiros certos, porém, o cantor passou a se concentrar na elaboração das frases musicais, abrindo espaço para que seus amigos Márcio Borges, Fernando Brant e Ronaldo Bastos participassem ativamente de sua obra. Escolhia o parceiro para cada música, determinava o tema, dava palpites e logo voltava-se à criação de novas composições. Era a efervescência de Milton Nascimento dando nova roupagem à sua carreira a partir de 1985. No disco Encontros e Despedidas, o cantor quebrou a regra de todo um protocolo artistíco: as 12 músicas deste álbum foram feitas por Milton com a participação de sete parceiros diferentes e em sete faixas Milton aparece não como autor das melodias, mas o autor das letras. Não chega a ser um disco fácil de ser ouvido, porque Milton utiliza de um artíficio que nos impede de contermos a emoção em faixas como a homenagem à Mandela (Lágrimas do Sul), a africanidade em Raça, a participação forte e vibrante de Clara Sandroni em A Primeira Estrela e na própria canção-título do disco. Nascia aqui um novo Bituca, mais autêntico e mais forte do que nunca.

 

Encontros e Despedidas (1985) / Milton Nascimento
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sábado, 26 de novembro de 2016

Entrevista com Virgínia Rosa


Virgínia Rosa: a entrevistada
Não é fácil ser Virgínia Rosa¹: além de dar vida à papéis importantes tanto na TV como no teatro, a cantora conseguiu uma brecha em sua agenda para receber o Mais Cultura Brasileira e nos brindar com sua simpatia e cordialidade para nos falar sobre sua história musical e seus planos futuros. Seus trabalhos são expressivos e marcantes, como a Dora, a mãe protetora da personagem de Camilia Pitanga na novela Babilônia – 2015; uma das mulheres retratadas em música na peça Palavra de Mulher – 2011 até o momento; faz uma bela homenagem à Carmen Miranda no musical Na Batucada da Vida – 2009 até o momento e Dona Zica em Cartola, O Mundo é um Moinho – 2016. Cantou Monsueto com brilhantismo total, dividiu vocal com inúmeros artistas conceituados e hoje reina absoluta com uma carreira sólida que conquistou aos poucos. De Itamar Assumpção passando por Cartola e Clara Nunes,  a cantora nos conta suas preferências, suas inspirações e sua paixão musical. Elogiada por dez entre dez estrelas do nosso cenário artístico, Virgínia é uma artista humilde, que tem sempre o sorriso largo no rosto e que nos cativa com seu canto, seu olhar e sua voz poderosa, impactante e emocionante. Nestes cinco anos de escrita homérica sobre a música nacional, tenho o prazer e a felicidade de poder entrevistar uma das cantoras que estava namorando para este momento desde 2012.

¹foto de Gal Oppido (acervo Virgínia Rosa)

 
Marcelo Teixeira - A sua relação com Itamar Assumpão era muito forte e vibrante e o próprio Itamar deixava a todos no palco inquietos com suas provocações musicais. O que você herdou de Itamar e o que você mais guarda de lembrança dele?

Virgínia Rosa - Tenho uma lembrança muito boa e instigante. Itamar foi um artista genial e extremamente exigente que às vezes era até difícil conviver, mas que me passou essa inquietação boa que nos deixava na corda bamba e nos empurrava para frente a todo momento, não tinha acomodação. Tudo era novidade pra mim naquele tempo, a estética musical muito diferente  do que eu já tinha ouvido, as pessoas... Mas como papai em casa já me mostrava coisas novas como os Secos & Molhados, The Beatles e etc, essa curiosidade e abertura para o novo já começava no meu lar através  do Sr. João, quando recebi o convite para estar na Banda Isca de Polícia. Aceitei, mesmo não sabendo muito bem onde chegaria com esse novo som. Meu pai me disse: Vá, minha filha, quem sabe abrem umas portas para você? E eu fui!

MT -  Em Cartola – O Mundo é Um Moínho (2016), você interpretou  um ícone dos bastidores do samba e foi uma responsabilidade enorme,  que te trouxe o grande reconhecimento do público e da mídia. Como foi a sensação de poder ser Dona Zica no teatro?

VR - Foi um presente, um convite, uma oportunidade de mergulhar em um personagem que existiu e que traz em sua trajetória de vida toda a força de superação, ternura e amor ao ser humano, à vida! A construção da minha Dona Zica não existiria sem as indicações generosas de sua neta Nilcemar Nogueira, toda cumplicidade com Flavio Bauraqui e a confiança de Roberto Lage e Jô Santana que viram em mim essa possibilidade. No mais segui a minha intuição pedindo licença à Dona Zica e que ela me abençoasse.

MT – Você fez uma linda homenagem à Clara Nunes no disco Virginia Rosa Canta Clara (2015). De onde veio a inspiração para poder homenagear uma das maiores cantoras do Brasil?

VR - Ouvi Clara Nunes dentro do meu lar, minha mãe já cantarolava. Depois já cantora profissional, precisamente em 2004, participei de um show em homenagem aos ABC do samba, Alcione, Bete Carvalho e Clara Nunes juntamente com outras cantoras. Nesse show escolhi  6 canções do repertório da Clara, entre elas Canto das Três Raças e cantando essas músicas e especialmente o CANTO DAS TRÊS RAÇAS me comoveu muito e também percebi a emoção tomar conta da plateia. E essa emoção me levou a um lugar que eu nunca tinha estado antes que é o encontro com a nossa ancestralidade e essa sensação me levou à vontade de cantar mais Clara, conhecer mais o seu repertório e sobre ela. Daí comecei a fazer os shows por São Paulo e algumas outras cidades. Como era um show já pronto fui propor um circuito de shows pelo SESC e como resposta recebi um convite através do professor Danilo Miranda para gravar um CD sobre esse trabalho para minha surpresa.

 MT   Um disco?

VR - Canção do Amor Demais    (Elizeth Cardoso)

MT – Um cantor e uma cantora.

VR - Luiz Melodia e Concha Buika.

MT  Quais foram suas influências musicais?

VR – Muitas. Vou citar algumas cantoras que passearam por mim, entre elas: Clara Nunes, Elizeth Cardoso, Elis Regina, Edith Piaf, Clementina de Jesus, Maria Callas, Billie Holiday, Meredith Monk, Laurie Anderson, Marisa Monte, Cássia Eller, Amália Rodrigues, Madonna e assim vai... Quanto aos músicos, as influências foram Astor Piazzolla e Bill Evans.

MT – Vírginia Rosa por Vírginia Rosa.

VR - Uma pessoa em busca. Inquieta e calma ao mesmo tempo. E essa busca é algo que dê sentido a nossa existência tão efêmera e o que podemos fazer para valer o tempo que passamos nesse mundo. Busco isso no meu dia-a dia e através da minha arte. Essa sou seu.

MT – O que te inspira a cantar?

VR - Uma vontade enorme de fazer uma coisa bonita, no caso, cantar e ver a reação de prazer que isso me causa e também nas pessoas que me ouvem. A emoção sempre está nos meus shows e isso é transformador para mim e para a platéia.

MT – Televisão, teatro, música... o que podemos esperar de Virginia Rosa para 2017?

VR - Ainda não sei, mas estou aí, viva e atenta aos sinais e convites que possam vir (risos) Concreto: A temporada do musical Cartola no Rio de janeiro entre março, abril e maio e  devemos fazer algumas capitais também. Continuarei a fazer shows de lançamento do CD Virgínia Rosa Canta Clara pelos SESCs, os projetos especias também devem continuar, Palavra de Mulher, Na Batucada da Vida... E começarei a trabalhar o novo disco.

MT - Música é...?

VR - Um bálsamo para humanidade.


O Mais Cultura Brasileira e eu, ensaísta e crítico musical deste blog, assim como os inúmeros leitores, agradecemos à você, Virgínia, por este momento único. Muito obrigado e sucesso sempre!


Entrevista com Virgínia Rosa
Por Marcelo Teixeira

 

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Por que devemos ouvir Virgínia Rosa?

Virgínia Rosa: uma voz espetacular
A elegância, a sofisticação, a naturalidade de sua voz e o respeito para com seu público são marcas registradas da cantora e atriz Virgínia Rosa, que acabou de fazer uma das temporadas teatrais mais emocionante do ano ao interpretar Dona Zica em Cartola – O Mundo é um Moinho, no teatro Sérgio Cardoso, fora a sua magistral interpretação em Palavras de Mulher, ao lado de Lucinha Lins e Tânia Alves, que rodou o Brasil inteiro cantando as músicas de Chico Buarque. Os resquísitos básicos de uma grande diva da música são estes citados acima, mas para Virgínia é preciso muito mais adjetivos para poder contempletá-la. As nuances de sua voz assim como as possibilidades de perfeição que alcança com as notas lançadas dão o frescor de sua garra como cantora e nos levam ao delírio máximo de êxtase absoluto. Enquanto os elementos mais alienados da música popular brasileira usam de todos os meios possíveis para se promover e agir, a cantora segue por uma linha que beira a bonança e o triunfo por chegar em um momento sublime da carreira sem desprezar ninguém. Virgínia trabalhou com Itamar Assumpção, o louco maldito da música vanguarda dos anos 1980 e desse experimento surgiu uma mulher completa na cultura brasileira, sendo capaz de nos hipnotizar com seu carisma e nos brindar com sua categoria postural e brilhante.  Virgínia canta com emoção, com sentimento, alma e são essas energias que a fazem brilhar cada dia mais. A questão da música popular brasileira vir sofrendo uma dependência quimíca abstrata nos tempos atuais faz com que a qualidade musical seja cada vez mais banida de uma esfera de categoria que engloba a resolução de uma resposta imediata para a massa que necessita ouvir boas coisas, mas Virgínia impera absoluta neste campo e consegue transmitir seu recado sem a necessidade de se perder ou se expor de forma contrária. É preciso ouvir Virgínia Rosa porque ela representa a alma lírica da música popular, traduzindo sua fidelidade e comunicação com o povo brasileiro, pois quem a ouve entende perfeitamente sua química, seu encantamento, sua beleza e seu resultado gratificante. Ouçamos mais Virgínia Rosa pela astúcia de seu trabalho, pelo vigor de sua responsabilidade cultural, pelo seu talento descomunal e pela conservação de seu canto. Ouçamos Virgínia Rosa pela densidade de sua categoria exemplar, pela fibra que carrega, pela disposição de seu carinho. Ouçamos Virgínia Rosa e isso será um ato de respeito à nossa própria cultura.
 

Por que devemos ouvir Virgínia Rosa?
Por Marcelo Teixeira

sábado, 5 de novembro de 2016

Remonta desmonta Liniker e remonta o mesmo


Remonta: disco perfeitinho
Ainda catalisado pelo excelente disco Remonta (2016 / Independente / 29,99), Remonta é um desses discos que te pegam de surpresa no meio do ano e entra sem pedir licença em nossas vidas. Liniker é um cantor provocativo e o álbum veio coroar um processo feito entre ele, sua banda e seus fãs, que ganham um belo presente para degustação sem pressa para se chegar a um final.  A entrada de 25 segundos da primeira faixa já dá o recado: o ouvinte entrará em uma viagem musical completa, que será responsável por apresentar todas as influências de Liniker misturadas à liberdade de produção, sem rótulos. Remonta, a segunda música do disco, cumpre o seu propósito de dar nome ao álbum e resume muito bem tudo o que será mostrado a seguir. O início acapella é inacreditavelmente ilusionista e ganha sonoridade instrumental surpreendente. Prendedor de Varal, em parceria com Xênia França, é mais dançante e nos lembra os áureos tempos da música negra brasileira nos anos 90 e 2000. Tua, também com Tássia Reis, é o contraponto introspectivo da música anterior. Sem Nome, Mas Com Endereço nos transporta para a cultura do sertão; algo impensável, mas admirável. O resultado é poderoso, mesmo que a letra verse sobre alguém se encontrando, e encontrando o amor. Talvez a maior surpresa de todos seja Você Fez Merda, um bolero com lembranças escancaradas de Tim Maia: mais uma mistura espetacular pensada por Liniker e sua equipe. É um bolero moderno, com elementos sonoros eletrônicos que não interferem em nada na música, mas a complementa de forma primorosa. Você Fez Merda é a personificação do Liniker divertido. Quem já foi a um show do artista sabe bem o que é isso: o cantor é poderoso e sempre deixa clara a sua luta pela representatividade, falando sério com seu público. Mas existem muitos momentos de brincadeira, mais leves, e que deixam o Liniker visceral descansando um pouco. Esse vai e vem de emoções é uma das marcas registradas das apresentações do músico. Fechando o disco, temos Ralador de Pia, uma música em parceria com Assucena Assucena e Raquel Virgínia (ambas de As Bahias e a Cozinha Mineira), além da grandiosa Tulipa Ruiz. A canção é daquelas que a gente imagina os quatro cantando na sala de casa, em alguma reunião com amigos. Incrível! Imperdível! Sensacional!

 

Remonta (2016) / Liniker
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Cinco anos de Mais Cultura Brasileira!


Cinco anos de MCB
Chegar ao seu quinto ano, neste mês de Novembro, sem um patrocínio, sem verbas e divulgando música por puro prazer é poder dizer que cheguei ao quinto ano fazendo aquilo que mais gosto: divulgar a cultura musical diversificada no Brasil. Criticar música não é uma tarefa fácil, exige compenetração, compromisso, determinação, horas e horas de audição de apenas uma música, saber separar o pessoal do profissional (muitas vezes um cantor não me agrada, mas sua música sim) e exige, acima de qualquer coisa, uma responsabilidade enorme diante inúmeros leitores. Nesses cinco anos recebi diversos emails de vários lugares do mundo de pessoas dando sugestões, pedindo críticas resenhadas, me agradecendo, me ofendendo, mas o que acho mais legal nisso tudo é a diversificação cultural que cada pessoa carrega dentro de si. Uma das coisas que mais aprendi com o Mais Cultura Brasileira e com a arte de criticar foi  saber respeitar o outro e esse lado humanizado de minha parte se deve e muito à Pedagogia (curso na qual escolhi para aprimorar meus conceitos éticos, cujo ainda estou aprimorando conhecimentos) e às pessoas que circundam minha vida me trazendo um pouco de sobriedade intelectual sobre o que pode ser melhorado aqui e ali. Completo cinco anos de blog com a mesma alegria do primeiro ano, do segundo, do terceiro e do quarto, em que cada ano era uma festa diferente: agora a festa pode ser compactuada formalmente, pois graças à você é que cheguei aqui, mudando meus conceitos sobre a teoria da crítica resenhada, utilizando palavras mais rebuscadas, buscando pelo novo, buscando novas formas de conhecer novos cantores, novos becos, novos guetos, novos ares. Escrever sobre música é um privilégio que não se resume apenas à ouvir sobre música: é preciso entender um pouco sobre ambas as coisas, sobre o universo particular e perpendicular do cantor ou da cantora, é ser humilde em solicitar uma entrevista e ser dinâmico em dizer não também. Nesses cinco anos de Mais Cultura Brasileira conheci cantores maravilhosos, pessoas maravilhosas e que se tornaram amigas. Mas quem me conhece sabe que não sou de badalação, de ficar indo aos shows diretamente, de estar na primeira fila VIP de cantor tal. Vou quando estou disposto e quando quero. O crítico de música não precisa, necessariamente, estar ali para ser visto. O crítico de música precisa estar atrás dos holofotes, por detrás das suas próprias palavras escritas, afinal, o mais importante em nosso trabalho é a divulgação do trabalho do outro e não necessariamente o nosso. O que fazemos é divulgar a cultura concomitantemente alheio ao serviço de bel-prazer. É um orgulho poder chegar à cinco anos de Mais Cultura Brasileira e orgulho maior ainda é estar sempre no meu mesmo devido lugar sem humilhar outros profissionais, sem deteriorar o trabalho do outro e sim, aprender com eles.

 
Cinco anos de Mais Cultura Brasileira
Por Marcelo Teixeira

sábado, 22 de outubro de 2016

Cala a boca, João!


Voz e Violão: excelente
Há quem o odeie e há os que o ama! Há também aqueles que ficam neutros quando o assunto é João Gilberto, um ícone da Bossa Nova e um dos pais do movimento que inspirou as pessoas a cantarem em ritmo mais lento e tendo como companheiros um banquinho e um violão. Não é fácil ser João, um gênio da música popular brasileira que hoje vive mais recluso do que nunca em seu apartamento, nos Estados Unidos. Obviamente que Cala a Boca, João (título deste artigo) foi uma referência à música de Dorival Caymmi, Cala a Boca, Menino (1973), pois João é um típico cantor que odeia berros, sobressaltos, devaneios e qualquer coisa que o deixa atormentado.  Com o surgimento de Chega de Saudade a reviravolta na música brasileira se fez presente e a revolução musical foi uma constante. A influência notória de João Gilberto foi fundamental para todo esse universo novo e para a posteridade, pois fora através dele que surgiram Chico Buarque, Caetano, Gil, Nara Leão, João Bosco e os mais atuais, como Fernanda Takai, Ná Ozzetti e outros. Para todos os efeitos, Voz e Violão (2000 / 27,90) é um disco que merece atenção por ser um disco não apenas de coletâneas, mas por ser um álbum em que contempla a importância de um grande catalisador da música ainda vivo. O que não dá para entender é como as gerações após 1960 não conseguem compreender ou encaixar João Gilberto dentro de um contexto musical ou intelectual e nem ao menos dão o seu devido valor, mesmo os grandes críticos de música saberem disso. Esse descontentamento para com ele entristece aqueles que gostam de sua música e fazem com que a geração que nasceu com Voz e Violão o desconhece. Vale a pena ouvir suas músicas, ler livros que falem sobre o cantor e estarem por dentro de sua musicalidade irretocavelmente perfeita!

 

Voz e Violão (2000) / João Gilberto
Nota 10
Marcelo Teixeira

domingo, 16 de outubro de 2016

Cartola - O Musical: emoção à flor da pele

Cartola e Zica: muito samba
Chega a ser difícil segurar a emoção e conter as lágrimas quando vemos Cartola (1908 – 1980) e Dona Zica (1903 – 2003) bem de frente para nós, com suas roupas de outrora, seus passos envelhecidos, seus trejeitos amadurecidos e suas histórias de vida sendo muito bem representados pelos atores e cantores Flávio Bauraqui (perfeito, impecável, espetacular) e Virgínia Rosa (linda, esplêndida, maravilhosa). É impressionante a dramatização que o musical Cartola – O Mundo é um Moinho¹ transpassa para o público que lotou o Teatro Sérgio Cardoso neste sábado, 15 de outubro: com uma sincronização perfeita, elenco afiado e texto primoroso, todos ali presentes estavam ansiosos pela próxima cena, que era muito bem narrada pelo ator, cantor e escritor Hugo Germano (um banho de interpretação). O público estava fervilhando de emoção com cada música cantada, com cada movimento no palco, mas o momento mais esperado era o encontro entre Cartola e Dona Zica. E isso acontece, óbvio, mas para chegar nesse período sublime (e real) é preciso contar toda a trajetória do cantor e compositor carioca, que preferia o morro do que a comodidade de um lar digno de reis e marajás. O musical não deixa a desejar em nenhuma ocasião e a plateia fica tão extasiada, que as palmas eclodem o lotado teatro a todo instante. Que perfeito casal de atores! Flávio e Virgínia estão em um momento espetacular, tendo em vista que há tantos musicais importantes na cidade que já foram produzidos e que estão em fase de produção.  Com idealização do ator e produtor Jô Santana, dramaturgia de Artur Xexéo, direção e encenação de Roberto Lage, pesquisa detalhada da neta do homenageado, Nilcemar Nogueira (que também é diretora do Museu do Samba no Rio de Janeiro) e direção musical de Rildo Hora, Cartola - O Mundo é um Moinho conta a trajetória de um dos maiores nomes do samba, cujo fora o fundador de uma das escolas mais antigas e com toda a certeza a mais popular: Estação Primeira de Mangueira. Vá agora assistir ao musical, porque é uma obra-prima! Mas leve um lencinho, porque você vai se emocionar do começo ao fim. Chegando ao final do espetáculo é preciso parar para uma reflexão: na última cena, em que Cartola e Dona Zica fincam seus nomes no samba e com uma alegria insana, é possível dizer que eles estavam de fato presentes ali no teatro. Vírginia cresce virginosamente no final do primeiro ato para o início do segundo e consegue colocar nos eixos a vida de Cartola e a sua música perene.  É inconcebível reconhecer os atores como eles mesmos, pois a caracterização de todos é tão impactante, que chega a beirar a perfeição com tantos detalhes importantes. Vale destacar também a bela apresentação de Adriana Lessa (sem palavras, grande atriz, excepcional artista), Edu Silva e seu magistral Carlos CachaçaSilvetty Montilla (divina em um papel feito exclusivamente para ela), que nos deram momentos de risos deslubrantes. Destaque para Augusto Pompêo, que interpretou o pai de Cartola, nos dando um banho de intepretação, André Muato que ironizou Nelson Cavaquinho, Paulo Américo com seu vozeirão magnífico dando voz também ao Zé Ketti, Lu Fogaça e sua Nara Leão bem tímida e perfeitinha e Gabriel Vicente, que conseguiu captar detalhes homéricos de Francisco Alves. Palmas esfuziantes para os astros da noite: Flávio Bauraqui e Virgínia Rosa e seus talentos extraordinários! Viva Cartola!
¹A peça fica em cartaz até o dia 31/10/2016
Elenco: Flávio Bauraqui, Vírginia Rosa, Adriana Lessa, Hugo Germano, Augusto Pompêo, Ivan de Almeida, Silvetty Montilla, Edu Silva, Renata Vilela, Larissa Noel, Lu Fogaça, Andrea Cavalheiro, Grazzi Brasil, Flávia Saolli, Paulo Américo, Gabriel Vicente, Rodrigo Fernando e André Muato.
Serviços:
Teatro Sérgio Cardoso (Rua Rui Barbosa, 153 – Bela Vista
Temporada: de 11 de setembro a 31 de outubro
Horário: As sextas, 20h; sábados às 21h, domingos às 18h e segundas, às 20h.
Classificação etária: 12 anos
Duração: Duas horas e meia
Ingressos: De R$ 30,00 a R$ 120,00
Vendas: ingressorapido.com.br

 

Cartola – O Mundo é um Moinho
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sábado, 8 de outubro de 2016

Daniela Mercury: do axé à MPB


Daniela: rainha da axé
Sempre digo que a música baiana é dividida em blocos importantes: a primeira retrata a música de Dorival Caymm e Assis Valente, o segundo bloco é representado pela onda de baianidade intelectualizada formada por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia, Baby do Brasil, Moraes Moreira e outros e o terceiro e mais importante bloco é representado apenas por uma única mulher, que revolucionou a música com três palavras determinantes: ginga, energia e determinação. A década de 1990 foi marcada pela geração de Daniela Mercury, que conseguiu uma legião de fãs por todo o Brasil com sua voz, sua dança, seu balé, sua sofisticação e seu axé. Estávamos saindo de uma onda roqueira, embalada por roqueiros e bandas com alguma simpatia cordial e estavámos enojados com o pagode brejeiro de grupos multifacetados que aspiravam a demagogia do riso forçado, que caminhava lado a lado com as duplas sertanejas que ascendiam lareiras fervilhantes, mas que nada se comparava aos mitos Chitãozinho e Xororó. As únicas cantoras que estavam no posto de donas da vez eram díspares em suas camadas musicais, sendo elas Marina Lima no rock e Daniela Mercury no chamado axé, pois Marisa Monte, que vinha de um disco maravilhoso de 1988 e Adriana Calcanhotto, que receberia as glórias em 1990, duelavam entre si pelo posto mais alto da música, mas o caminho de Daniela estava livre para mostrar o seu talento e, de quebra, aquilo que ninguém até então tinha ouvido cantar, falar e comentar. Ao longe e timidamente, cantoras do naipe de Cássia Eller, Zélia Duncan, Fernanda Abreu apareciam aqui ou ali em apresentações medianas. Mas 1991 foi um divisor de águas na carreira meteórica de Daniela Mercury, que nesta altura já tinha desistido de ser bailarina para se tornar a maior estrela da música nacional. Arrastou multidões com a música Swing da Cor (1991), que lhe rendeu centenas de shows e lhe valeu a fama de cantora das multidões. De fato, não havia uma cantora nacional com aquela popularidade enorme e Daniela tinha todos os atributos para ser a rainha do axé. Daniela Mercury era um fenômeno por onde passava e o axé tinha uma representante à altura. Com coreografias sensacionais, a cantora deixou seu nome registrado na música nacional como sendo a maior de todos os tempos. Depois de seu sucesso estrondante, artistas do naipe de Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque passaram a reverenciar sua voz, seu canto e seu estilo e a tornaram ainda mais em evidência: era o primeiro passo da cantora no mundo da MPB. A bem da verdade, Daniela já flertava com a música popular brasileira em algumas faixas de seus discos e esse sempre foi o desejo da baiana em ser um dia uma cantora distante do axé. Não que o estilo fosse negativo, mas Daniela sempre almejou ser uma nova Gal Costa, dando a chance de mostrar para outros públicos o quanto sua voz poderia ser privilegiada fora de um contexto elétrico. Com a chegada de Ivete Sangalo e, mais tarde, de Claudia Leite, Daniela deu vazão para o mundo da MPB e foi abandonando aos poucos a axé que um dia lhe consagrou. A mudança não surtiu tanto efeito assim para os fãs ardorosos da cantora, mas Daniela soube usar a inteligência e já havia sacado que se não mudasse de estilo o mais rápido possível, poderia cair no ostracismo. Não foi o que aconteceu: com ótimas releituras e com a voz ainda mais valorizada, Daniela conseguiu respeito e admiração de um público cada vez maior e que conseguia nutrir uma satisfação nada egocêntrica de sua parte. Daniela conseguiu mostrar sua voz para a cidade e realizou o sonho de ser uma menina baiana que um jeito que Deus dá.

 

Daniela Mercury: do axé à MPB
Por Marcelo Teixeira

sábado, 1 de outubro de 2016

A obra, o legado, a decadência e o mito Raul Seixas


Raul: mito do Rock
Raul Seixas morreu em agosto de 1989, derrubado pelos excessos. Deixou músicas que se tornaram hinos à rebeldia e à inconformidade com as coisas caretas do mundo e milhares de fãs desolados. Gente de todos os tipos choraram sua partida, desde ricos, pobres, caminhoneiros, roqueiros, urbanóides, sertanejos e estudantes. Raul não tinha rótulos, embora o rock estivesse em sua veia, mas o cantor passeio pelo baião, pelo samba e pelas baladas, compondo pérolas como Rock das Aranhas, Metamorfose Ambulante, Ouro de Tolo, Al Capone, entre tantas outras maravilhas. Mas o que esperar de um garoto problemático que cresce ouvindo Elvis Presley, Luiz Gonzaga, Chuck Berry e Jackson do Pandeiro? Raul transitava por todas as searas musicais, dizendo que não tinha um título que o rotulasse. Gostava de Genival Lacerda, mas também admirava Cauby Peixoto. Nascido na Bahia em 1945, Raul Seixas gostava mesmo era de intimidar as pessoas com suas tiradas e sacadas geniais. Várias de suas músicas foram censuradas pela Ditadura Militar, algumas foram engavetadas para uma gravação futura, outras tiveram que ter letras trocadas para não serem grampeadas pelo governo. Seu primeiro disco foi lançado em 1986, com o título de Rauzito e os Panteras, pela EMI-Odeon, não sendo um grande sucesso de público e muito menos de crítica. Com tanta desilusão musical, o cantor desfez a banda e voltou aos estudos, no curso de Filosofia. Não tardou muito e o cantor voltou à música, em 1972, inscrevendo-se para o VII Festival Internacional da Canção, classificando aqui duas músicas que se tornariam hinos consagrados: Let me Sing, Let me Sing e Eu Sou Eu, Nicuri é o Diabo. Através dessa classificação sensacional, o cantor e agora compositor reconhecido é contratado pela grande gravadora, a Phillips. Com sua ida à Phillips, Raul deparou-se com um escritor fracassado, metido a bruxo e com um lado místico efervescente: Paulo Coelho, que acreditava em discos voadores e extraterrestres. Através desse encontro, a vida de ambos, cantor e escritor, passa por uma transformação avassaladora: eis a parceria mais importante da música popular brasileira. Em 1973 lança sua mais pura perfeita tradução musical com Ouro de Tolo e a irônica e zombeteira Mosca na Sopa. Perseguido pelos militares em 1974, Raul exila-se nos Estados Unidos e mais uma vez é surpreendido pelo acontecimento histórico e inacreditável: o encontro com o ícone da música americana John Lennon. Volta ao Brasil no mesmo ano e compõe Sociedade Alternativa, O Trem das Sete e Gita, que se transformou em um disco antológico. Mas nem tudo eram flores na vida musical de Raul e, por esse motivo, em 1975 lança Novo Aeon, um disco fraco e que vendeu muito pouco, deixando a todos os empresários cabisbaixos, mas a qualidade desse disco é igual ou melhor que o de 1974. É nesse disco que se encontra um dos maiores selos românticos da obra do cantor: A Maçã. Já em 1977 lança O Dia em que a Terra Parou, compondo ao lado de Cláudio Roberto o hino hippie Maluco Beleza e que, por consequência disso, passa a ser o apelido de Raul. Esse disco passa a ser uma obra-prima também para o próprio Raul, pois Gilberto Gil dá uma canja no violão na música Que Luz é essa? Em 1978 lança Mata Virgem e retoma a parceria com o escritor Paulo Coelho, que estava meio estremecida desde 1975. Deprimido com público e crítica que rejeitaram seu disco Por quem os Sinos Dobram (1979), Raul exagera no consumo de bebidas e drogas, onde passa por várias internações e perde metade do pâncreas em uma cirurgia. Apesar dos problemas pessoais, o cantor volta com carga total e lança um mediano álbum, Abre-te Sésamo (1980), com relíquias como Anos 80 e Rock das Aranhas. Tendo uma boa repercussão por causa desse disco, Raul inicia uma pequena turnê pelo interior de São Paulo, preferindo apresentar-se em cidades pequenas, levando sua arte àqueles que não podiam ir aos seus shows de grandes proporções. Essa iniciativa não deu tão certo assim, embora a crítica o aplaudisse de pé: o cantor era visto bêbado nas padarias, sempre ao lado de um copo. Raras vezes o encontravam com um bloquinho e uma caneta rabiscando alguma música. Desse bloquinho ainda surtiram efeito de luz no fim do túnel e Raul põe no mercado, agora pelo selo Eldorado, o disco Raul Seixas, que conseguiu emplacar Carimbador Maluco e a música infantil Plunct-Plact-Zumm. Já em 1984, o cantor lança Metrô Linha 743, pela Som Livre, que teve uma música censurada: Mamãe Eu Não Queria (Servir o Exército).  Depois desse disco e sendo cada vez mais chamado de Maluco Beleza, Raul passaria por outras gravadoras e isso virou piada entre o meio musical, pois mostrava a já decadência do artista. Porém, em 1987, no disco Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Bém-Bum!, pela Copacabana, nasceu um de seus últimos hinos: a bela Cowboy Fora da Lei. O ano de 1988 não começou bom para o cantor, que vinha se tratando de vários problemas relacionados a álcool e lança um disco mais fraco que o de início de carreira, em 1968 e o de 1979. A Pedra do Gênesis (1988) foi muito mal recebida por todos e Raul decide-se se isolar por completo. Mas graças ao amigo e cantor Marcelo Nova (nesse tempo, Paulo Coelho já estava afastado de Raul), o convence a gravar novamente. O último disco da carreira de Raul chama-se A Panela do Diabo (1989), sendo um convite a sua saída derradeira aos 44 anos de idade e sendo um ícone da música nacional brasileira. O grande legado que Raul Seixas deixa para a música contemporânea é o seu mundo representado por músicas místicas envolvidas por ritmos até então nunca imaginadas juntas.  Raul não fora apenas um cantor que ministrou o baião, o samba e o rock no mesmo palco, mas sim, um grande cantor que estava desenhando o seu mundo imaginário através daquilo que achava justo e correto cantar.

 

O legado de Raul Seixas
Por Marcelo Teixeira

 

sábado, 24 de setembro de 2016

Os clichês de Manu Gavassi


Manu e um disco adolescente
Dentro do seu universo pop juvenil, Manu Gavassi é detentora de um estilo único, que tenta ser perfeitinho e autoral. Não há como negar a evolução da cantora dentro da música popular brasileira e esse seu crescimento está associada a imagem de Júnior Lima, irmão de Sandy, de quem Manu é fã fervorosa. Podemos dizer que Clichê Adolescente marca o fim de uma era adolescente na vida musical de Manu, assim como podemos dizer também que marca o início de uma era musical composta entre a sonoridade mais adulta e a música que tenta a batida perfeita. Não, ainda não é o momento de Manu dentro da música, mas mostra o quanto a cantora desenvolveu uma postura mais comportada e singela e própria desde o lançamento deste disco, em 2013, até seu mais novo disco, Vício (2016). Tudo aqui gira em torno do romantismo juvenil da cantora, do seu lado teen, de garota comportada, de menina que resolveu soltar para todos seu lado puro. Tudo aqui é fraco, mediano e não há expressão musical da cantora, mesmo com uma produção com a assinatura de Rick Bonadio. Clichê Adolescente (2013 / Sony Music – Midas Music / 21,99) é gostosinho de ouvir, perto de outros álbuns da cantora, mas Manu precisa crescer e crescer e crescer para ser mais ouvida. Por enquanto, ela está dentro do limite que sua idade permite.

 

Clichê Adolescente (2013) / Manu Gavassi
Nota 7
Marcelo Teixeira

sábado, 10 de setembro de 2016

O pagode convencional de Thiaguinho em Vamo que Vamo (2016)


Thiaguinho: criando jargões
Pagodeiro nato e com estilo próprio para cantar e se apresentar, Thiaguinho prova mais uma vez que além de um bom interpréte, sua função maior é colocar na boca do povo jargões que grudam em nossa memória feito chiclete e que passamos a cantarolar sem ao menos percebermos. Depois de megas sucessos como Ousadia e Alegria (2012) Caraca, Muleke (2014), agora o aspirante ao posto de sambista surgiu com o hit Vamo que Vamo (2016 / Som Livre / 29,00), que já está no topo das paradas de todo o país. Mas antes de qualquer coisa, é bom deixarmos uma coisa clara aqui neste artigo: gosto do Thiaguinho, ouço suas canções, mas não ouso acompanhar sua carreira e muito menos carregar seus discos para cima e para baixo. Não pelo fato de ser pagodeiro, mas pelo fato de suas músicas não acrescentarem em nada a honrada, porém sacrificada, Língua Portuguesa. Thiaguinho e sua equipe souberam muito bem de onde extrair um valor absurdamente rentável ao trazer a tona ditos populares que a galera logo pára para ouvir. Exemplo claro é seu Vamo que Vamo: além de detonar com a linguagem habitual meramente linguística, o cantor utilizou artimanhas que fazem as pessoas erguerem os braços numa manifestação que ecoa festa e ludicidade. Thiaguinho é experiente nesse segmento e sabe como ninguém a fórmula de fazer sucesso em um país que ostenta funkeiros com seus carrões, dissimula seus verdadeiros chavões da MPB, desequilibra a bancada sertaneja e desorienta outros pagodeiros que adorariam estar em seu lugar. Sem ser caricato, o disco mereceu uma capa branca contrariando a sua cor natural de pele, o que ficou muito bacana e estilosa, mas algumas letras deveriam nem mesmo estarem no disco, tamanha a sua falta de encantamento. Mesmo assim, vale a pena ouvir esse novo trabalho de Thiaguinho mais pelo som da novidade do que pela motivação musical. Mas Vamo que Vamo fica apenas nisso: um festival de pagodes eletrizantes distanciados do verdadeiro samba, que faz com que o povo pagodeie alegremente, esquecendo que o legítimo samba é o que está na ponta do pé.

 

Vamo que Vamo (2016) / Thiaguinho
Nota 7
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Os ponteiros de Tito Marcelo em O Futuro Ligeiro da Demora (2016)


Tito Marcelo: álbum perfeito
A música quando cantada com vontade, com gosto e com causa, ganha notas alcançadas dentro de uma atmosfera que requer uma cumplicidade ímpar e analógica de seu estado de espírito.  Esquece-se o tempo, o relógio, o contador, os ponteiros e passamos a pontuar a sonoridade, a coerência harmoniosa, o desfrute de um som perfeito e vicioso que requer uma simbiose de simplificações homéricas equidistantes.  Para fazer uma boa música é preciso uma boa harmonia, uma boa letra, uma boa voz e com isso ganhamos uma simpatia eloquente entre aquilo que recebemos auditivamente e respondemos com sorrisos largos, agradecendo pela música que ganhamos. Tito Marcelo representa a juventude escondida dentro de nós, trazendo para o hoje a sua visceral música, translúcida e rica de ambientes sofisticados com a pontuação de relógios que mesmo com ponteiros desregulados, conseguem fazer a assimetria de um futuro gostoso, porém sem pressa. O Futuro Ligeiro da Demora (2016 / Independente / 20,00 – www.titomarcelo.com), produzido por André Vasconcellos, é um delicioso disco que tem samba, eletrônico, soul, regaae, gingado, harmonia, cristalina voz e elegância. Com uma capa sistematizando o número 3 como sendo o terceiro de sua carreira, Tito nos concede um álbum magnífico mostrando que a música é o seu caminho e que aqui existe um poço de verdades emaranhadas com sua inquietude infinita de fazer boas canções. Disco diferente de seus trabalhos anteriores, tudo em O Futuro Ligeiro da Demora nos remete a alguma coisa, seja um amor ressentido, um carinho sincero, um encontro ao ar livre, uma cinza manhã que se transforma em uma tarde de sol agradável. Esse é o encanto de todo o disco: o elo entre a verdade de Tito Marcelo para a alegoria que está à sua frente. Recifense, o cantor que já foi entrevistado pelo Mais Cultura Brasileira evidencia sua música com a riqueza de detalhes envolvendo o amor, a tecnologia, o tempo, o silêncio amargo da demora, a felicidade encantadora do amanhã e a retórica sabedoria filosófica do hoje. Sendo seu melhor disco até o momento, Tito Marcelo expõe um desfiladeiro de músicas que ficam martelando em nossa mente a todo instante, com uma leve pitada de lembranças saudáveis de um tempo qualquer e com aquela sensação de que a nossa música brasileira é a melhor do mundo. É impressionante sua capacidade vocal, tão límpida e florescente quanto perfeita e autoral, nos trazendo a certeza através de suas canções o reflexo de que precisávamos de sua presença agora, amanhã e sempre. Chega a ser uma tarefa difícil selecionar uma ou outra canção, mas é irresistivelmente preciso parar para ouvir todo o disco, repeti-lo inúmeras vezes para termos a clara e evidente certeza de que aqui há um produto de qualidade e no dia seguinte tornar a repetir o feito. Tito Marcelo era o cantor que faltava: seja em qualquer eventualidade, sua voz ecoa por nossas mentes com sua transparente musicalidade, sua poesia e sua ludicidade. O cantor e compositor nos apresenta o melhor disco de sua carreira com O Futuro Ligeiro da Demora, pontuando em cheio sua música dentro da MPB e nos provando que o futuro pode ser ligeiro mas com uma pitada de demora.

 

O Futuro Ligeiro da Demora (2016) / Tito Marcelo
Nota 10
Marcelo Teixeira

domingo, 28 de agosto de 2016

A sofisticação de Clara Nunes ao cantar Tom e Chico


Clara: sofisticação na MPB
Engana-se quem pensa que Clara Nunes foi uma cantora apenas de samba ou que tinha a sua religiosidade à risca para cantar aquilo que o povo brasileiro precisava aprender sobre cultura africana. Óbvio que o reduto da cantora era poder mostrar que a africanidade existente dentro de cada um de nós era proveniente de uma religião, mas isso foi tão emblemático em sua vida particular, que hoje, decorrido mais de trinta anos de sua morte, ainda reverbera a imagem de Clara de que ela fora uma cantora de macumba. Isso, fora de contexto, serve de lição para os analfabetos de plantão, afinal, aquilo que Clara cantou reflete e muito em nossa vida cultural e religiosa. A África está ligada em nossas raízes mais ainda do que Portugal, que colonizou nosso país. Mas Clara foi muito mais que uma cantora de samba: ela cantou e encantou as músicas de Tom Jobim e Chico Buarque como nenhuma outra cantora ousou em fazer.  Clara Nunes Canta Tom & Chico (2005 / EMI / 23,99) é uma coletânea original que reúne as canções gravadas por Clara de dois monstros sagrados da nossa música popular brasileira. Com produção de Luiz Linhares Garcia e Cláudio Rabello, o disco é impecavelmente perfeito pelo teor das composições, pela natureza de um repertório bem elaborado e pela delicadeza com que cada compositor gerou sua cria. Clara soube aproveitar o momento sublime em canções que enaltecem o romantismo, com teor político e sabor embolorado com rústicas minimalistas, com a perfeição de sua voz e a suavidade de sua imagem.  Fica impossível não resistir aos encantos de Sábia (1968), ao romance na luta de duas mulheres pelo mesmo homem amparadas pela guia de asfalto em Umas e Outras (1973), ao imperialismo português em Fado Tropical (1977), aos encantamentos amorosos e sentimentais à flor da pele de Novo Amor (1982), a política irrestrita e cabal de Apesar de Você (1977) e ao samba moderno e feito sob medida para Clara em Morena de Angola (1980), que fizeram o Brasil e a África sambarem ao samba encantador de Chico Buarque. Esse disco demonstra a importância de Clara na nossa música e de duas esferas na MPB: o patrono Tom Jobim e seu pupilo rebelde Chico Buarque.

 

Clara Nunes Canta Tom & Chico (2005) / Clara Nunes
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O estado de poesia de Chico César


Chico César e sua poesia
Chico César é um dos melhores cantores e compositores de seu tempo e a prova disso é a quantidade de discos lançados sempre com a excepcional excelência de músicas consagradas e pelo aporte de cantoras que já o gravaram. Seu estilo vai muito mais além de Mama África, música que o consagrou e o revelou da Paraíba para o Brasil inteiro, fazendo de sua carreira um arsenal de metáforas consagradas. Chico César é um raro tipo de cantor que tem na veia a verdadeira música de raiz, brasileira, típica e nordestina. Estado de Poesia (2015 /Urban Jungle – Natura Musical / 24,00) é mais que um disco de músicas inéditas de Chico César: é um expoente de poesias catalisadas de um homem paraibano que consegue transpassar sua leitura através de sentimentos próprios e com significações alheias.  Estado de Poesia reflete o momento atual de Chico: mais poético, mais harmonioso, delicioso de ouvir e que une a delicadeza de ritmos brasileiros com a sonoridade universal, contendo, no mesmo disco, ritmos como samba, forró, toada e reggae, características unilaterais que sempre regeram a vida artística de Chico. Estado de Poesia se iguala a outros discos importantes na carreira do cantor, como Respeitem Meus Cabelos, Brancos (2002) e De Uns Tempos Para Cá (2011) tamanha a sua força poética, lírica e unilateral.  Vale lembrar que a faixa-título do álbum foi gravada por ninguém menos que Maria Bethânia no DVD Carta de Amor, como celebração de sua amizade com o artista paraibano. E não é nenhum segredo o amor que a cantora baiana tem pelo Chico. Estado de Poesia é um disco que fala de amor, de amor próprio, de licença poética, de vida, de união. Expoente natural da cultura brasileira, Chico César nos brinda com mais um disco autoral, perfeito, sem retoques e com a sinfonia fina de sua rica intelectualidade.

 

Estado de Poesia (2015) / Chico César
Nota 10
Marcelo Teixeira