domingo, 3 de setembro de 2017

MC Guimê prova que é o líder do funk em disco que reverencia a lua

Guimê: estrela do funk
Lançado no final do ano passado, o cantor e compositor MC Guimê deu vida ao seu álbum Sou filho da Lua (2016 / 26,99), que conta com participações que vão de nomes do rap nacional à cantora de axé Claudia Leitte.  O disco é o primeiro de estúdio completo lançado pelo cantor. Considerado uma das maiores vozes do funk ostentação, o cantor surgiu na esfera internética em 2010, conquistando seu espaço e divulgando suas canções pelas redes sociais. Seus maiores sucessos são Plaquê de 100, Na pista eu arraso e Tá patrão, cujo vídeo oficial já ultrapassa mais de 30 milhões de visualizações. O novo disco, descrito pelo próprio Guimê como u sonho realizado, traz várias participações, algumas delas bastante inusitadas. Entre elas estão Emicida, na bela música Sampa, Negra Li em Nem maior nem melhor (tenha fé), Marcelo D2 em Cadê a mina? e Claudia Leitte em Vou te dizer. É um disco totalmente diferente daqueles que Guimê já fez, mas vale muito a pena ouvir esse novo trabalho, pois aqui há a sonoridade de diversos ritmos, demonstrando que o funk pode ser bem vindo em outras searas, tirando de cima dos funkeiros essa responsabilidade que o estilo proporciona algo maléfico. Ainda dentro desse pantaleão musical, Guimê segue à risca com sua doutrina de líder ;do movimento funk no Brasil e consegue trazer a harmonia que todos precisam ter e entender. Seu disco novo propões essa sintonia de paz que busca o funk. Para todos os efeitos, Sou filho da lua é mais um espetacular disco desse que é um dos maiores e melhores nomes da música brasileira.


Sou filho da lua (2016) / MC Guimê
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O lado intimista de Daniela Mercury em O Axé, A Voz e O Violão (2016)

Daniela: do axé a Chico Buarque
Inventora do axé music e dona de uma voz que levanta a multidão, a cantora e compositora Daniela Mercury é um fenômeno que merece respeito por qualquer seara musical na qual explora. A prova cabal disso é que seu trabalho lançado no ano passado é uma mistura que engloba todos os ritmos nas quais a cantora transitou e que reúne desde Chico Buarque à Margareth Menezes, passando por Chico César e Lenine. Sendo a Rainha do Axé e com todo orgulho, a cantora fez o diferencial em sua carreira ao lançar o exuberante O Axé, A Voz e O Violão (26,99 / Biscoito Fino / 2016) que, na minha modesta opinião, é um disco que merece atenção, repeito e cumplicidade pelo trabalho integral de Daniela. Com 16 álbuns solos, além de canções inéditas nesse novo disco, Daniela nos brinda com ótimas releituras da MPB, o trabalho foi recebido mornamente pelo público e pela crítica. Aqui há emoção, sentimento, amor e a cantora nos remete a um passado em que as músicas eram tratadas com um zelo sem igual. Considero o disco como um todo um tanto minimalista em que a cantora vai esmiuçando o axé até se transformar em uma potente vocal e explosiva em pérolas da música popular brasileira e nos brindando com o melhor de seu cancioneiro, pois ela vai desde o início de sua carreira até chegar aos quilates da africanidade e se rendendo nos braços buarquianos. Aos 51 anos de idade, Daniela Mercury continua a se lançar a desafios que cada vez mais diversificados. Acostumada a sempre estar saracoteando nos palcos em movimentos amplos e largos, dançando praticamente sem parar, o som aqui fica praticamente a cargo da orquestra, movida pelo violão e pela suntuosa voz da cantora. Músicas carimbadas como O Canto da Cidade, Música de Rua, Você Não Entende Nada estão lá, em formato intimista e atemporal. Vindo desde os primórdios de sua carreira magistralmente bem conduzida, Daniela resolveu homenagear os mestres Chico Buarque e Gilberto Gil, assim como para mostrar que tudo é música brasileira, tudo é samba, tudo é brasilidade.  Vale a pena ouvir o som quase bossa novista da eterna rainha do axé em um momento único, especial e sublime.


O axé, a voz e o violão (2016) / Daniela Mercury
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sábado, 26 de agosto de 2017

Os Tribalistas de 2017: melhor que em 2002


Os tribalistas: melhor que em 2002
Com um estilo mais autoral e menos conturbado que o primeiro lançamento de 2002, os Tribalistas ressurgem em um momento transformador e único na vida dos três mosqueteiros amigos e fazedores de música. A volta dos cinquentões, como já havia escrito em artigo anterior, demonstra toda a versatilidade de Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte em meio a crises musicais que o Brasil vem passando nos últimos tempos. O novo disco é muito melhor que o disco que o de outrora a começar pelas letras, muito mais elaboradas e menos populista e pela sofisticação da capa, das vozes e do cenário musical que cada um interpreta em seus estilos solitários. Pode parecer banal, mas Tribalistas (2017 / Universal Music / 29,99) é um disco que merece ser ouvido e reouvido porque a sonoridade produzida aqui é de uma maestria sem igual. Assim como ainda acredito que ser tribal é pertencer ao grupo criado pelo trio, ou seja, apenas amigos são convidados a cantar com eles em estúdio ou ao vivo, fazendo desse tribalismo um ato de amor à música. É como se amigos de outros tempos se reunissem e ficassem cantando ao luar: é assim como este belo álbum é representado. Para se unir ao trio de amigos, a cantora portuguesa Carminho fecha o disco com uma delicadeza sem igual, na faixa que soa como infantil Os peixinhos. Tribalistas traz algumas mudanças em seu jeito de cantar e de ver o mundo e não se iguala ao trabalho anterior no quesito musicalidade, mas músicas como Feliz e Fora da Memória (e talvez apenas as duas) se assemelham com o disco de 2002. Para tanto, o trio estão muito engajados e antenados com o que acontece ao redor do Brasil ao abordar a música Diáspora. Sendo uma das melhores fases criativas de Arnaldo, Carlinhos e Marisa, Tribalistas subiu no meu conceito e passa a ter um respeito dentro daquilo que considero o melhor da música popular brasileira.


Tribalistas (2017) / Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte
Nota 9
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Eis o novo e velho Chico Buarque em Caravanas (2017)

Eis as caravanas de Chico Buarque
Mesmo sendo chamado de machista por metade daqueles que ouviram a faixa Tua Cantiga, disponibilizada dias atrás pelas redes sociais, Chico Buarque parece não ter dado muita trela e, mesmo com uma resposta singela sobre o caso, fez seu comboio passar a frente de uma dúzia de insatisfeitos e lançar seu novo trabalho à beira de muita crítica e muito blá blá blá. Depois de um hiato silencioso de seis anos, eis que Chico Buarque, o todo soberano cantor, poeta, político, compositor, amante das mulheres, dos bêbados, dos trabalhadores, solta o verbo em sete canções inéditas e em duas regravações. Não irei tratar aqui de um artista completo que Chico é, mas sim, medir esforços para não dizer o quanto insatisfeito ficarão os insatisfeitos e o quanto mais crítico fico com relação à sua música. Para todos os efeitos, gosto das músicas e de tudo aquilo que Chico faça ou venha a fazer, mas meu papel não é agradar aqueles que gosto ou defender um partido que na qual não estou disposto a fazê-lo. Caravanas (2017 / Biscoito Fino / 29,99) chega hoje às lojas físicas de todo o Brasil trazendo um disco bom (não ótimo), pegando rabeira em discos anteriores e se aproximando e muito de sua última criação, Chico, lançada em 2011, que já vinha com um martírio penoso de ter semelhanças com discos anteriores. Mas faz sentido o título que Chico deu ao seu novo trabalho: caravana é o mesmo que comitiva, comboio, frota e algo que remete a uma viagem; logo, Chico pega viagem em grandes distâncias para poder chegar a um lugar comum, que é o coração de alguém. Quem? Vamos por partes: quando lançou o espetacular As Cidades (1998), vindo de uma alegoria fantástica e criativa de Carioca (2006), o cantor não tinha nenhuma madame em mente. Alguns anos anteriores, Ivan Lins e Chico compuseram a emblemática Renata Maria, gravada magistralmente por Leila Pinheiro em seu disco Nos Horizontes do Mundo (2005), cujo até hoje soa como uma homenagem a alguma namorada. Depois disso, ele fez duas pérolas em formatos de trabalho (As Cidades e Carioca) e parou no tempo. Em 2011 lançou o morno Chico, em que nascera devido seu romantismo em torno da cantora e compositora Thaís Gullín. O namoro não deu certo e, cinco anos depois de separados, Chico conhece uma curitibana, com quem, segundo dizem, mantêm uma relação amorosa. Eis o ponto de partida para que o mestre do cancioneiro feminino tivesse prestes a voltar a compor. E isso de fato aconteceu com o nascimento de Caravanas. Será que Chico Buarque só vai conseguir compor quando estiver namorando? Seja como for, Caravanas não é um disco maravilhaso, mas como se trata de Chico Buarque, a espera é bem vinda e muito aguardada. Em alguns casos há um certo acerto, como o caso de Dueto, música que não é inédita, gravado com sua neta Clara Buarque, em que neta mostra ao avô o lado real e tecnológico das redes sociais. Outra sacada foi o também neto Chico Brown vir com sua esperteza em Massarandupió, onde o jogo de palavras rima perfeitamente com frases bem construídas, mas que nos remete a Subúrbio, onde há funk, palavrão e tudo aquilo que nunca esperamos de Chico, composta em 2006. Única faixa em espanhol, Casualmente é uma mistura simplória entre Havana e Brasil. E o samba-canção, marca registrada em discos iniciais, marca presença aqui com Desaforos, faixa que nos remete a Cotidiano. Enfim, a Caravana de Chico Buarque chegou, mas não trazendo tantas alegrias como era o esperado, porém, chegou um momento que transcende sua verve criativa dentro do imaginário dos netos, tão criativos quanto o avô, que, nesses últimos anos vem deixando a desejar, sem perder sua importância dentro da música popular brasileira.


Caravanas (2017) / Chico Buarque
Nota 7
Por Marcelo Teixeira

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Fernando Lauria presta homenagem a Gonzaguinha

Homenagem a Gonzaguinha


O cantor Fernando Lauria lança o álbum Gonzaguinha Palavra por Palavra no próximo dia 29 de agosto (terça feira), às 21 horas, no Teatro Itália, em São Paulo. Lauria acompanhado por João Cristal no piano, Marcos Paiva no baixo-acústico e Daniel de Paula na bateria, apresenta uma bela homenagem ao eterno Gonzaguinha, morto prematuramente em 1991. Trata-se de uma das minhas maiores influências musicais e há tempos planejo este projeto, explica o cantor. O atual álbum possui 12 faixas e a gravação e a mixagem ficaram por conta de Luis Paulo Serafim e ainda contou com as participações especiais de Daniel Gonzaga (Feliz), Graça Cunha (Lindo Lago do Amor) e Cassio Ferreira (Galope). Mas outras canções belíssimas estão no repertório, como Explode Coração, Diga Lá Meu Coração, O que é o que é, entre outras. O cantor realiza o show em tom emocionado e carregado de sentimentos explosivos. Vale a pena conferir esse show, que está envolvido com o Projeto Terças Musicadas.
Serviços:
Terças Musicadas apresenta Fernando Lauria e Trio em Gonzaguinha Palavra por Palavra
Data: 29/08/2017 – 21 horas
Local: Teatro Itália – Av. Ipiranga, 344 – Edifício Itália – Subsolo – Metrô República
Vendas online pelo site: www.compreingressos.com.
Telefone da bilheteria do teatro: (11) 3155 – 1979

Créditos da foto: Rodrigo Castro

sábado, 12 de agosto de 2017

A volta dos cinquentões Tribalistas


Os cinquentões Marisa, Arnaldo e Carlinhos

Quem não sabia que os Tribalistas voltariam, por favor, que atire a primeira pedra contra a própria cabeça! Estava nítido que o trio Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown voltariam a atuar, mesmo que isso demorasse vinte ou trinta anos. Quinze anos depois de lançarem a explosão musical que uniria os três amigos, eis que eles voltam com um disco de inéditas repleto de sensações e vibrações positivas, com características marcantes e suavidade diferente de seu roteiro inicial. E o disco vem em um momento especial para os três: enquanto Arnaldo completará 57 anos em setembro e Carlinhos 55 em novembro, Marisa completou 50 em julho passado. O trio de cinquentões mudou a concepção de música adquirida em sua primeira incursão e agora conseguem explorar mais as nuances musicais que outrora era impessoal e não reconhecida por eles. O markenting deles é forte: lançar inicialmente 4 músicas no mercado internético para lançarem no final desse mês o disco pronto. A ideia central de reunir Marisa, Arnaldo e Carlinhos é tão simples quanto objetiva: no centro, Marisa, que é amiga e detentora de várias canções de ambos, defende a tese de que amigos são importantes em nossa vida e, por esse motivo, devem ser repatriados numa esfera atemporal, uniforme e sensata. Arnaldo e Carlinhos, díspares de uma mesma sintonia musical musicalizada por Marisa, encontraram em seus versos uma maneira de unir e monopolizar aquilo que ambos jamais poderiam encontrar, que é a voz de Marisa dentro de um mesmo patamar. Carlinhos e Arnaldo conseguem, cada qual ao seu jeito, unificar na voz cristalina de Marisa aquilo que ambos querem transmitir e, sendo assim, conseguem fazê-lo com uma maestria ímpar. Embora seja um trio, cada musico aqui têm uma particularidade diferente: Marisa é a mentora do grupo, enquanto Carlinhos destoa a atmosfera transloucada de versos improvisados, trazendo a africanidade regente em sua verve e Arnaldo, um típico filósofo da atualidade, que consegue mirar em profundas, ricas e pobres vertentes num olhar puro e certeiro. Os Tribalistas são criteriosos e, por isso mesmo, erram e acertam em algumas canções. Se no primeiro disco, cujo fui um crítico ferrenho para tal, transcorridos 15 anos, posso dizer que alguma coisa mudou com relação à música que eles produziram. Agora há uma sonoridade menos populista e mais autoral, mais rude e mais intelectual, o que não aconteceu com o primeiro. Já era dada como certa a volta dos três aventureiros tribais e foi bom que esse hiato de quinze anos tenha ocorrido, pois, assim, a sua música ficou boa, dentro de um limite audível que os Tribalistas propuseram a cantar.

 
 
 

A volta dos Tribalistas
Por Marcelo Teixeira

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Leny Andrade - uma cantora brasileira


Leny : grande dama da MPB e sem rótulos
Embora muitos ou poucos a considerem como uma cantora de jazz, a própria Leny Andrade não se considera rotulada como tal. Leny gosta de ser chamada de cantora. Simplesmente cantora. Em alto e bom som e na sua mais plenitude definição. E por que e para quê limitá-la a um gênero quando se sabe que ela domina tantos outros? Se precisar for classificá-la de alguma maneira, a única palavra possível seria: brasileira. Então assim a chamemos: Leny Andrade, uma cantora brasileira. Assim como é uma cantora brasileira que fez mais sucesso (com merecimento) do que em solo americano, a própria Leny diz que é uma aspirante cantora americana. Nada nada e nada longe da verdade. Leny canta desde 1983, quase todo o ano, em Nova York. E tanto que, em 1993, dez anos depois, já com o Green card na bolsa, resolveu montar por lá um agradável espaço em formato de moradia onde pudesse pousar o corpo durante suas longas e lotadas temporadas no Ballroom, no Blue Note, no Town Hall e nas demais casas que disputavam o seu canto. Era também uma base confortável para onde retornar depois de se apresentar em Washington, em Los Angeles ou em cidades americanas. E até hoje é assim, com a diferença de que seu principal placo em Nova York passou a ser a casa de jazz mais respeitada do mundo: o Birdland, assim chamada para homeagear o saxofonista Charlie Bird Prker. Nenhuma cantora pode ser comparada à Leny, exceto Ella Fitzgerald. Excelente cantora que é, Leny é uma cantora que improvisa em vocais, lógica e assimétricas em explosivo dinamismo. Nascida no Rio de Janeiro em 1943, a cantora foi criada em conjuntos habitacionais e desde pequena sonhava em ser cantora. Ingressou na Bossa Nova tendo dois pontos centrais e cruciais: de um lado João Gilberto, que mantinha uma postura cool, equilibrada, simplista, justa e exata e de outro lado tinha a linha feminina que contrariava com a de Nara Leão, Dulce Nunes, Astrud Gilbert, Odette Lara, Wanda Sá, Joyce, Miúcha, Elza Soares, Elis Regina. Mas ao mesmo tempo que Leny tinha o exemplo e companheirismo de João Gilberto, ela se dividia entre outras inspirações e vertentes masculinas, como Wilson Simonal, Jorge Ben e Emílio Santiago. Mas ao adentrar na Bossa Nova, Leny provou que era Sambop, estilo totalmente diferente do estilo banquinho e violão. Um dos maiores desmentidos à história de que a bossa nova era cantar baixinho foi a entrada de Leny no movimento: cantar baixinho não era com ela. E mesmo assim, Leny foi a mais consagrada dentro desse time de cantoras extraordinárias. Miéle e Ronaldo Bôscoli foram os responsáveis pelo impacto da presença de Leny em solo brasileiro, quando produziram o histórico show Gemini V, que também contava com Pery Ribeiro e o Bossa Três. Depois disso, Leny percebeu que aqui não seria seu verdadeiro palco, embora saiba da sua responsabilidade em ser brasileira: o Brasil não a respeitaria como cantora, mulher e dona de uma das vozes mais autorais de seu tempo. Fez e faz sucesso nos Estados Unidos pelo conjunto da obra e lá o povo americano a reverencia como sendo a maior cantora de jazz do mundo.

Leny Andrade – uma cantora brasileira
Por Marcelo Teixeira

sábado, 5 de agosto de 2017

A morte de Luiz Melodia


Até qualquer hora, Luiz!
FOI  como uma bomba caindo sobre minha cabeça quando recebi nas primeiras horas da manhã de ontem que Luiz Melodia havia morrido. O Brasil ficou sem Luiz e sem Melodia. Se já estava complicado ouvir música em um país descabido de música, o que será de nós agora sem Luiz Melodia? O nosso ébano, nosso Zé Bedeu, nossa voz do morro carioca e nosso negro gato se foi para tristeza de muitos. Em 2015 me encontrei com Melodia em plena Avenida Paulista, aqui em São Paulo, onde falamos sobre as diferenças entre São Paulo e Rio de Janeiro e sobre muita música. Para quem não sabe, Luiz era um grande defensor da raça negra e lutava pela igualdade de valores e pela desigualdade que assolava nosso país. Foi um encontro natural, como de dois amigos que se reencontram em um momento qualquer. Luiz Melodia atravessou por mim como quem atravessa suas músicas por nossos poros, mentes e corpo. Perdemos a voz, perdemos o encanto, o jeito danado e o soul jazz de um dos maiores e melhores cantores do Brasil. Ontem passei o dia chorando, triste, relembrando desse dia que, para mim, já era importante e agora será mais ainda. Luiz Melodia não foi um cantor qualquer e muito menos um cantor de um estilo único: Luiz fora de uma categoria ímpar, de uma excelência sem igual, de uma humildade tamanha e de uma reciprocidade igual. Desde julho do ano passado, o cantor vinha se tratando de uma doença autoimune e chegou a passar por um transplante de medula óssea. Luiz, carioca da gema, estava internado no Hospital Quinta d’Or e morreu ontem pela madrugada aos 66 anos, devido à complicações de um câncer que atacou sua medula. O cantor foi sepultado agora pela manhã no cemitério do Catumbi, Rio de Janeiro. Familiares, amigos famosos e anônimos compareceram ao velório. Ele deixa a esposa Jane Reis e dois filhos, Mahal e Hiran. Sentiremos saudades, Luiz. Muitas saudades.

O adeus a Luiz Melodia
Por Marcelo Teixeira

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Uma rosa de Elizeth Cardoso para Pixinguinha

Sofisticado disco de 1983
Chega a ser um verdadeiro absurdo um país que tem as melhores cantoras brasileiras não fazer zelar pela maior das vozes de todos os tempos: Elizeth Cardoso. Mais absurdo ainda, talvez, seja a proliferação de cantoras ingratas sem intelectual algum estarem em um topo desqualificável ao ponto de baterem no peito e dizerem que são as maiores cantoras e vozes de todos os tempos. Mas Elizeth só ouve uma e era carinhosamente chamada de A Divina. O artigo poderia muito bem encerrar aqui e tapar as bocas de cantoras despudoradas que vivem rebolando no palco ou com aquelas que utilizam do violão para dizerem que são multi em alguma coisa. Considerada por muitos como uma das mais brilhantes cantoras de todos os tempos, Elizeth era uma talentosa intérprete e reverenciada pelo público brasileiro e internacional, que exigia seus shows de duas a três vezes ao ano.  Mas Elizeth dispensa qualquer tipo de apresentação: seja A Divina, A Magnífica ou a A Enluarada, a cantora era uma das representatividades mais importantes de seu tempo e até hoje é exemplo de profissional competente para as cantoras que prestigiam sua personalidade.  Poderia ficar aqui escrevendo inúmeras linhas para elencar a importância de Elizeth dentro da música popular brasileira ou, então, convencer você que lê este artigo nas várias facetas da cantora. Mas nada é tão saboroso do que ouvir Elizeth. Nada é mais divino do que sabermos que temos uma Elizeth Cardoso para chamar de nosso! A prova maior de seu talento está registrada em Uma rosa para Pixinguinha (1983), em que a cantora canta e glorifica um dos maiores compositores de todos os tempos.  Salve, dona Elizeth!
 
 
 
 
Uma rosa para Pixinguinha (1983) / Elizeth Cardoso
Por Marcelo Teixeira

sábado, 29 de julho de 2017

O comodismo de Chico Buarque em Tua Cantiga (2017)



Chico: prolixo e difuso
Chico Buarque mobilizou o país inteiro essa semana com o lançamento de seu novo single, Tua Cantiga (2017), que fará parte do álbum de inéditas que será lançada agora em agosto com o título de Caravanas. Juram os especialistas de plantão, com carreira renomada e com título de doutor em criticar música que Tua Cantiga é a continuação de Todo Sentimento (1987), canção que marcou a retórica parceria entre Chico e Cristovão Bastos, cujo fora gravada no último disco de Elizeth Cardoso, em 1989 e sendo recontinuação de Futuros Amantes (1993), gravada depois por Gal Costa. Primeiro que não concordo com essa comparação pífia, pura e simplesmente porque ambas as músicas são díspares em suas nuances e propostas. Segundo porque Chico Buarque parece querer se afastar dessas músicas mais antigas e se apropriar de canções mais atuais e, por esse motivo, Tua Cantiga se assemelha mais com Chico (2011) do que com as compilações da década de 1980. Terceiro porque Chico encostou-se ao comodismo e no comodismo ficou encostado. Não gosto muito de escrever sobre canções jogadas ao público aleatoriamente, mas como essa é a nova onda do momento, tenho que me adequar, mas, mesmo sendo fã incondicional de Chico Buarque, tenho que reiterar que, por hora, Tua Cantiga não é uma surpresa itinerante, muito menos há um sabor de frescor.  Por pouco, enquanto ouvia Chico cantar, não via Machado de Assis conversando com Eça de Queiróz num banco de praça ou ver trólebus e casais apaixonados sendo embalados por longas serenatas, mas o que mais senti foi a real presença da singularidade humana e de uma realidade assemelhada ao mundo europeu e talvez isso tenha acontecido depois de ter lido seu último romance, O irmão alemão (2014), em que fala exatamente sobre a esperança do amanhã, do recomeço amoroso, da sutileza de gestos amáveis que não voltarão a existir. Falta a Chico a inovação, a esperança, a sutileza de entender que os dias mudaram, tal qual fizera com o espetacular As Cidades (1998) ou no atemporal e sensato e atual Carioca (2006), onde Chico se rendera aos encantos da pobreza local, do dilaceralante tempo equidistante entre o real e o imaginário e do perfeccionismo acerca de sua redoma musical. Mas ainda não estou criticando o disco num todo e sim, uma única canção, mas já posso ter uma noção do venha a ser a tal Caravanas de Chico. Tua Cantiga, por hora, se assemelha às canções de Chico (2011), mas ainda assim é cedo para poder dizer algo à altura do cantor. Prefiro ouvir o disco inteiro para poder criticar com veemência, mas, de antemão, Tua Cantiga demonstra o comodismo musical que assola a vida de Chico Buarque nesses últimos anos de hiato criativo.
 

Tua Cantiga (2017) / Chico Buarque
Por Marcelo Teixeira

domingo, 23 de julho de 2017

O novo álbum de Johnny Hooker não merece ser ouvido

Johnny Hooker: lixo
Ainda não entendi o que cantor Johnny Hooker faz na MPB e o porquê o mesmo insiste em cantar. Entendo que a cultura brasileira é rica e entendo também que temos que respeitar a sonoridade alheia, mas chega a ser uma aberração completa tê-lo em palcos brasileiros, enquanto o verdadeiro artista encontra-se escondido nas entrelinhas do Brasil. Venhamos e convenhamos: Johnny Hooker não canta absolutamente nada, não tem carisma, não tem sofisticação artística, não tem gabarito profissional, não tem lisura musical, não tem personalidade, não tem nada que chame atenção a não ser a sua aberração a favor daquilo que seja esdrúxulo, cansativo e arrastado. Sem nenhuma personalidade que o prevaleça, o antearquétipo de cantor está lançando um disco infame e sem consenso para ter uma crítica à altura de algo que prevaleça em sua carreira. Depois do insensato Eu vou fazer uma macumba pra te amarrar (2015), o cantor acaba de lançar o sem graça Coração (2017), que não chega a ser um ótimo disco, mas é inferior ao primeiro, que já não tinha nem colocação entre uma infinita seleção dos melhores. Com uma mistura de sons refletidos em batuques desconexos, o álbum é uma configuração elitista de um artista que não se encontrou em território nacional, deixando a desejar em suas mensagens, suas transmissões e se preocupando mais com as causas de orientações sexuais do que propriamente com algo realmente benéfico à cultura brasileira. Seja como for, o disco, totalmente fora dos padrões e estéticas sociais culturais, é um dos piores discos do ano, sendo da pior espécie e se igualando ao primeiro trabalho do cantor. Se o beijo com Liniker para lançar a música Flutua já era uma aberração sem precedentes, com letra inspirada em uma aventura de amor e chegou há pouco mais de 1 milhão de visualizações, o disco Coração, com patrocínio do Natura Musical, mesmo com as 11 canções inéditas, não consegue ser uma alegoria de músicas sensatas e ditas cabíveis de serem a favor de uma crítica sensata. Eis aqui um disco horrível, com pegada incompreensível e difícil de ser digerida ou, como diria Sartre (1905 - 1980), degustiva. O ambicioso projeto de Hooker, que está disponível nas plataformas digitais a partir de hoje, não a pena ter o seu clique. Coração é o segundo disco da carreira do cantor e conta com a participação de Gaby Amarantos em Corpo Fechado e que tem músicas como Caetano Veloso e Escandalizar. Esse é o segundo disco de Hooker, mas bem que poderia ser o último!

Coração / Johnny Hooker
Nota 3
Por Marcelo Teixeira

 

sábado, 22 de julho de 2017

Os trunfos de Zizi Possi

Zizi Possi: diva das divas
Trabalhando a música de forma mais acústica e valorizando grandes clássicos da nossa música popular brasileira com um jeito único de cantar e expressar o sentimento por meio de canções que entrelaçam perfeita e nitidamente com o timbre de sua voz, Zizi Possi é considerada hoje uma das cantoras do primeiro time do cenário nacional, com toda a sofisticação e riqueza cultural que conseguiu angariar desde os anos de 1980, quando de fato adentrou na cultura do povo brasileiro. Em 1978, período fértil para a MPB, na qual despontavam vários novos artistas, como Alceu Valença, Marina Lima, Zé Ramalho e Elba Ramalho, o lirismo cristalino da voz de Zizi dava o tom do recado em músicas imortalizadas em sua voz com requintes de pluralismo acentuado acerca do amor, do romantismo, da aproximação entre o real e o imaginário do poder de seduzir e ser seduzido por meio do ar teatral e das mãos ao vento que a cantora sentenciava categórica e perfeitamente.  Dona de uma privilegiada de soprano, Zizi conseguiu dar um marca própria às interpretações de Meu Amigo, Meu Herói (1980), primeira canção das muitas de Gilberto Gil que gravou ou, ainda, Eu Velejava em Você, grande sucesso de Eduardo Dusek e Luiz Carlos Góes, que gravou em 1981, entre outras. Mas antes do sucesso vir bater à sua porta, em 1978 a cantora lançou o emblemático e atemporal Flor do Mal, que foi recebido mornamente pelos críticos da época, mas não pelo público, que vinha sendo seduzido por cantoras como Gal Costa e Elis Regina, seguindo a mesma linha cultivada pela autonomia e perfeccionalismo profissional. Assim como Gal e Elis, Zizi é uma intérprete e utiliza a voz como instrumento e recurso de trabalho e, perante isso, era sempre comparada às duas cantoras, ficando até em vantagem musical quando Elis morreu, em 1982. Chico Buarque a concebera ao estrelato dos estrelatos com a imortal e arrepiante Pedaço de Mim, cujo fizera dueto com o cantor em 1979, levando o país ao choro conturbado e generalizado.  Em 1982 gravou Asa Morena, música que a representou definitivamente ao grande público devido à sua interpretação sensacional e a grande intercalação entre sua voz e a canção regional, que pedia grande apelo comercial, mas que, devido a isso, não perdeu o seu caráter oficial de ser popular. Outro salto de qualidade foi proporcionado, novamente, pelo padrinho Chico, que a convidou para participar do disco em parceria com Edu Lobo, O Grande Circo Místico (1983), onde interpretou a faixa principal, O Circo Místico.  Tão dilacerante quando Pedaço de Mim, essa canção, que aborda o sobrenatural e o universo mítico do circo é até hoje um dos momentos mais emocionantes na carreira de Zizi. O perfil de Zizi Possi sempre foi o de estar antenada à sua geração musical e, por esse motivo, gravou de Djavan à Marina Lima, passando por João Bosco, Tom Jobim e Lulu Santos. Que, graças à sua personalidade musical, ganharam novo formato e nova roupagem. No entanto, o cansaço de estética pop, o axé, o pagode, o sertanejo e outros estilos musicais que não se encaixavam com o estilo único da cantora com o rótulo de cantora de excelente recurso vocal e repertório refinado, fizeram com que a cantora arregaçasse as mangas e desse uma grande virada em sua carreira. A partir de uma nova mudança musical nos anos 1990, sendo totalmente diferente daquela de início de carreira, Zizi passa por uma grande transformação musical e reconhece que seu estilo é único e intransferível. O refinamento na concepção e na produção de seus novos trabalhos deram a tônica à obra de Zizi desde então. Mas sem o apoio da máquina das grandes gravadoras, a cantora tomou as rédeas de sua carreira tornando-se produtora independente. O caminho aberto por ela nessa nova trilha foi o disco Sobre todas as coisas (1991), mas a consagração mesmo veio com Valsa Brasileira (1993), elogiado em todos os segmentos e veículos de mídia por ser um disco que prima pelas pérolas da MPB. O refinado Mais Simples (1996) se interpõe ao figurado Bossa (2001) e que se consagra com Per Amore (2006), disco que remete ao seu passado de origem italiana. Seu último trabalho foi o espetacular E o mar me leva (2016), em que reúne composições de Zeca Baleiro com produção artística de Swami Júnior, que veio embalado com o DVD Na Sala com Zizi, registro bem sucedido em sua carreira. A carreira magistral de uma grande diva da MPB se faz presente em todos os âmbitos de sua carreira magistral, com ênfase maior em sua categoria profissional e sua límpida e cristalina voz. Viva Zizi Possi!
 

Os trunfos de Zizi Possi
Por Marcelo Teixeira

domingo, 16 de julho de 2017

Sabrina Parlatore - o brilho de uma cantora


Sabrina: trilhando o caminho da música
Os jovens de hoje e aos que nasceram no final da década de 1990 praticamente nunca ouviram falar em seu nome e de sua importância dentro do universo musical brasileiro, mas Sabrina Parlatore é um dos ícones de vanguarda de um tempo que jamais será esquecido. Quando apresentava os programas oriundos da MTV, hoje canal exclusivo de TV por assinatura, seu nome era referência de prestígio e sabedoria, pois Sabrina sabia do que estava falando e dava seus pareceres e críticas acerca da música com propriedades marcantes. Mas para Sabrina, ex modelo e eterna apresentadora de um tempo único e importante da TV brasileira, não se limitou apenas a esse ofício. Já naqueles tempos a apresentadora se encontrava encantada na frente de um microfone e nos bastidores havia quem apostasse alto em sua grandeza perante um disco autoral. Demorou para que isso acontecesse e hoje Sabrina, em  mais um momento brilhante em sua carreira, vem trilhando um caminho que beira a sofisticação pela bela entonação de sua voz e o brilho por cantar. Sua trilha é uma metodologia simples, porém ardilosa: a cantora não ostenta o estrelato, mas prioriza a qualidade. Quem a vê cantando no programa dominical global não imagina o quanto foi difícil chegar até aqui: depois de vencer um drama pessoal, de estar erradicada em seu mundo particular e de estar sempre antenada com o mundo que a cerca, a cantora foi galgando aos poucos seu aprimorado repertório e deu a volta por cima com pompas de uma bela bailarina. Ainda sem discos lançados, a cantora se mostra versátil ao cantar releituras primorosas de outros artistas, sempre com uma categoria ímpar que destoa quaisquer comentários senão os melhores. Recentemente, a cantora mineira radicada em Brasília Márcia Tauil a convidou para uma sabatina de shows envolvendo o melhor da música brasileira, para um dueto de altíssima qualidade. Márcia Tauil, por sinal, dona de uma das melhores vozes do Brasil, conseguiu um feito e tanto ao fundir sua voz angelical com a voz catalisadora de timbre veludoso de Sabrina em shows esporádicos em solo brasiliense, cujo receberam críticas positivas do meio musical. Sendo única em seu jeito de interpretar e cantar as músicas selecionadas a dedo, Sabrina dribla a superstição e prova que além de ter sido apresentadora do segmento, também pode cantar – e bem, obrigado! O que chama a atenção aqui é que Sabrina, detentora de uma suavidade impressionante nos trejeitos simbólicos ao cantar, está sendo julgada no dominical justamente por muitos cantores e cantoras que, no passado, foram selecionados ou opinados por ela em ato profissional. Se todos queriam uma chance em algum ponto positivo de Sabrina naquele tempo de glória, onde cada frase, chamada de clipe ou comentários acerca do disco lançado eram importantes e onde cada artista tinha um valor cultural imprescindível, hoje é Sabrina quem lhe concede a devida atenção com seu brilhantismo envolta de sua voz, de seu encanto e de sua beleza musical.

 

Sabrina Parlatore – o brilho de uma cantora
Por Marcelo Teixeira

 

domingo, 9 de julho de 2017

Kátia - a voz da música brega dos anos 1980


Kátia: sucesso até hoje
Sendo uma das grandes representantes da música popular nas décadas de 1970 e 1980, Kátia hoje figura entre as cantoras mais nostálgicas de seu tempo, devido às letras carregadas de sentimentos amorosos e com frases de impactos que beiram entre o sofrimento brega e o amor ressentido. Tendo como padrinho artístico ninguém menos que Roberto Carlos, a estreante promessa da música nacional lhe apresentou canções próprias que caíram no gosto do mentor da Jovem Guarda. Roberto a indicou junto à gravadora CBS para que a cantora fizesse testes musicais e depois de tudo certo, Kátia estreou na música aos 14 anos, no ano de 1978, ao lançar o compacto com as músicas Tão só e Sensações, ambas composições suas, demonstrando o calibre autoral que já tinha. Mas seu sucesso mesmo veio em 1979 ao gravar para a mesma gravadora a música Lembranças, de Roberto e Erasmo Carlos, que foi feita especialmente para ela. Lembranças é uma das letras românticas mais lindas de todos os tempos e a voz da cantora ajudou a reforçar esse mérito, sendo um dos maiores sucessos de sua carreira. Depois disso, foi um sucesso atrás do outro, como o disco de 1980 que trazia outra canção especial da dupla Carlos, Cedo pra mim, que fez estonteante acontecimento musical. Já em 1982 saiu o disco Calor, que teve pequena representatividade no mercado musical, mas não diminuiu o talento da cantora. Depois de um hiato silencioso, Kátia lançou a música que a consagraria definitivamente como uma das cantoras mais queridas e lembradas da música dos anos 1980 pelo conjunto da obra: Não tem jeito, na versão da dupla Carlos para It Should Have Been Easy, sendo mais conhecida como Não está sendo fácil. Os discos seguintes não chegaram a marcar tanta presença no mercado, mas conseguiram manter um nível elevado de musicalidade com forte influência da personalidade da cantora, como Kátia (1989), Conversa Comigo (1990), Kátia (1992), Kátia (1994). No início da década de 1990 a onda sertaneja comandada por Leandro e Leonardo, Zezé di Camargo e Luciano e Chitãozinho e Xororó disputavam espaço acirrado com os pagodeiros do Só pra Contrariar, Katinguelê, Negritude Jr e Exaltasamba. Não mais que isso, o espaço era disputado também por ícones da música baiana, como Daniela Mercury, que vinha sozinha com um coro arrepiador, destoando seu suingue e rebolado e se firmando como a mãe do axé. Do outro lado vinha o romântico Latino, que conseguiu atrair milhares de olhares com seu jeito esdrúxulo de cantar e dançar. Por tudo isso, o esquecimento pela cantora Kátia se fez acontecer e a cantora se afastou por um tempo da música para se dedicar a trabalhar com distribuição de um programa sintetizador de voz para computadores, destinado exclusivamente a pessoas cegas, o DOSVOZ, desenvolvido por uma faculdade carioca.  Considerada por muitos como ícone da música brega romântica, Kátia deixou sua marca na cultura musical dos anos 1980 com grandes sucessos na bagagem e sendo uma grande vendedora de discos, tendo permanecido por 17 semanas na parada de sucessos da Billboard Latina com a música Tan sola. Nos anos 2000 voltou a ser prestigiada pelo público de festas que consagravam artistas dos anos 1980 e sua voz voltou a ser carimbada nos microfones. Kátia é referência musical ontem, hoje e amanhã.

 

Kátia – a voz da música brega dos anos 1980
Por Marcelo Teixeira

sábado, 8 de julho de 2017

A indicação de Alberto Salgado no Prêmio da Música Brasileira

Alberto: indicado em duas categorias
O Prêmio da Música Brasileira 2017 chega a sua 28º edição com a plenitude única de reverenciar o som que marca cada região do Brasil com um vasto repertório de canções, compositores, cantores e músicos da mais alta categoria em uma festa que tem por motivação maior o respeito ao trabalho mútuo por todos aqueles que são indicados e dão vida à música. Este ano a cerimônia será em homenagem ao camaleão Ney Matogrosso, cujo evento está marcado para o próximo dia 19 de julho, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Ser indicado a qualquer uma das categorias é uma alegria sem precedentes e contempla a diversidade que pauta no mercado fonográfico cada vez mais diluído pela juventude, que acaba desconhecendo a alma da música brasileira dentro de seu fulgor mais sublime. Um dos indicados chamou a minha devida atenção pela representatividade que têm dentro da música popular e por ter sido meu entrevistado aqui no Mais Cultura Brasileira: trata-se do cantor e compositor Alberto Salgado, que está sendo indicado em duas categorias, sendo as mais representativas: na categoria Cantor / Regional com o álbum Cabaça D’Água (2017), retratado em artigo no blog e na categoria Melhor Cantor Regional, ao lado de Alceu Valença e Raimundo Sodré (pelo trabalho em Os girassóis de Van Gogh). Com uma sonoridade ímpar e única, Salgado incorpora em suas músicas uma brasilidade incontestável e rica, que produz movimentos sólidos por meio de pensamentos absortos. Dentro desse pantaleão criativo, o cantor e compositor brasiliense, que lançou em 2014 o excelente Além do Quintal, demonstra assuntos atuais e cotidianos em um álbum sofisticado, plural e atemporal, que nos permite transitar por vários momentos antológicos ao som de sua voz potente e que elenca a importância de sua música dentro de sua regionalidade. Ao lado de Salgado na categoria Melhor Álbum Regional estão os cantores Alceu Valença, que vêm com o disco Vivo! Revivo! e Valdir Santos, que traz Celebração. A combinação harmoniosa e expressiva de sons junta-se com a arte de se manifestar por meio de regras variáveis o artifício vivo de Alberto Salgado, que agora pode ser reconhecido por muitos como um cantor de altíssima grandeza, com sua indicação ao grande Prêmio da Música Brasileira.
 
A indicação de Alberto Salgado no Prêmio da Música Brasileira
Por Marcelo Teixeira

sábado, 1 de julho de 2017

Marisa Monte - 50 anos


Marisa - 50 anos de vida!
Marisa Monte chega aos 50 anos de idade com a mesma garra e vitalidade com que começou sua carreira, em 1987, ano que iniciou de fato na música popular brasileira com muito jazz, MPB e um estilo que a diferenciava de outras cantoras, mas que se esbarrava com o jeito sereno e arrebatador de Adriana Calcanhotto, cantora que veio um ou dois anos depois. Mas Marisa, no auge de seu estrelato, sabia o que queria fazer: administrar sua própria carreira, sem os mecanismos do sistema que ela sabia muito bem existir. Com uma maestria digna de grandes divas do showbizz, Marisa conduziu sua carreira fazendo aquilo que gostava de cantar, aquilo que gostava de compor e se cercou de artistas e pessoas que praticamente estavam indo no contrafluxo de uma carreira promissora, casos de Arnaldo Antunes que, mesmo estando no estrondoso Titãs, acabava compondo com Marisa pérolas incríveis. Nando Reis vinha dessa seara também, mas um pouco mais contido, com menos canções iniciais que o Arnaldo. Carlinhos Brown, seu melhor amigo e inspirador de todos os tempos, era desses compositores que fizeram com que a artista vendesse mais discos que água em farol engarrafado: o enorme sucesso de MM (1988) era motivado pela releitura da italiana Bem que se quis, que até hoje é referência em sua carreira, mas Verde Amarelo Anil Cor de Rosa e Carvão (1994), em que a música Segue o Seco estrondou em todos os canais de TV e estações de rádios e elevou o nome de Marisa às alturas. De lá para cá foram sucessos garantidos na voz dessa estrela, que teve divisão de vocal com bambas da MPB, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Baby do Brasil, Tim Maia, Paulinho da Viola. Não é sempre que fazemos 50 anos e o Mais Cultura Brasileira se prontificou a homenagear Marisa desde o primeiro dia deste ano e irá fazê-lo até o último segundo de 2017. Reverenciar sua grandeza é sentir que a música brasileira pode ser alicerce para qualquer estado em nossas vidas. Parabéns, Marisa Monte pelos seus 50 anos de vida!

Marisa Monte – 50 anos
Por Marcelo Teixeira

sábado, 24 de junho de 2017

A importância de Markinhos Moura


Markinhos: a voz de 1980
Assim como Ney Matogrosso na década de 1970, Markinhos Moura foi o grande responsável por diversas baladas que embalaram pessoas de diversos gêneros na década de 1980, sendo a continuidade existencial de um rito que começou com Ney sobre a diversidade sexual que existe com mais veemência nos dias de hoje. A importância de Markinhos Moura na música, explorando esse lado sensual, mesmo que contido, mas com uma dramaticidade não efêmera e de grande porte, foi o mote central para que tenhamos hoje cantores com a sexualidade aflorada e suas diversidades acentuadas a tal ponto de que as pessoas não questionem sobre tal atitude. O mundo mudou seus conceitos sobre tudo e até a música teve o impacto generalizado por tal feitio e a postura desenvolta de Ney e a magnífica transposição contida de Markinhos foram o mote substancial diversificado mostrando a luta por um espaço que até então era massacrado e discriminado por muitos. Havia o preconceito escancarado e muitas vezes velado sobre os dois artistas, o que fazia com que ambos fossem massificados dentro de um sistema unilateral que os unissem dualmente. Enquanto Ney vinha com uma luva estampada na cara e com danças sensuais a cerca da exploração de seu corpo, Markinhos era o oposto e se mostrava de cara límpida e com passos contidos e simples acerca de sua dimensão artística. Aqui encontra-se o oposto entre dois artistas que buscavam um lugar de respeito mútuo dentro de seu espaço, o espaço que era caracterizado e concebido por meio da música e de sua importância para elencar o nível de suas representações. Markinhos Moura fora o grande sucessor de Ney na década seguinte a dele e, com a morte de Elis Regina em 1982, sua voz ficou ainda mais atrelada dentro do cancioneiro feminino, mas com um respeito digno das grandes estrelas. Se hoje temos Filipe Catto e Liniker, assim como o Não Renegados, devemos muito a competência exemplar de artistas como Ney e Markinhos, que exploraram de forma categorial a diversidade de gêneros com uma categoria impressionante e mediática que merecem respeito. Com enorme sucesso graças ao clássico Mel Mel, Markinhos se afastou da grande mídia, mas não deixou de ser o excelente cantor que é: o intérprete de Anjo Azul é destaque constante no Bar do Nelson, no bairro de Santa Cecília, onde recepciona e tem o sorriso cativante de ponta a ponta das orelhas. Ouvir Markinhos Moura é viajar no tempo, um tempo saudoso, cheio de alegria atemporal e que nos anestesiava por completo. Seu grande salto se deu em 1985, quando lançou o disco Diretrizes, mas foi em 1987 que sua música e voz de fato estouraram no Brasil inteiro, quando Meu Mel foi enfim imortalizada. Assim como altos e baixos, a vida do artista deu uma pequena derrapada e ele saiu de cena ainda na década de 1990, mas sem perder o brilho de sua carreira. Markinhos continua a cantar e muito: em 2010 lançou o antológico Mulheres e Canções, em que canta ao lado de cantoras como Verônica Ferriani, Zezé Motta, Fabiana Cozza e Maria Alcina. É digno que a juventude de hoje em dia conheça e saiba da importância desse grande cantor que fora enorme sucesso de público e crítica em uma época repleta de mistérios e ao mesmo tempo de um lirismo profundo e encantador.

A importância de Markinhos Moura
Por Marcelo Teixeira

terça-feira, 20 de junho de 2017

Eliza Clívia - descanso digno das estrelas

Eliza merece o descanso digno
Muitas vezes ficamos horrorizados com a onda de violência que assola as redes sociais e a banalização com a qual as pessoas se expõem de uma maneira tão visceral e onipresente com algo que as incomodam, que foge de suas realidades e que se neutralizam com suas imperfeições. O avesso do avesso também é o corte mais profundo na carne e que muitas vezes esse corte só é sentido no outro e nunca em nós mesmos. Ninguém pede para morrer. Ninguém pede para ser feliz naquilo que faz e gosta. A violência não está apenas na forma inadequada de inapropriação de valores deturpados pela sociedade egocêntrica que requerem direitos e favores que beiram a insignificância não digna de uma retaliação popular. As pessoas não sabem o dia de amanhã quando lidamos com a imagem do outro, com o nome do outro. Tinha conhecimento do sucesso de Eliza Clívia no Nordeste e sabia de seu sonho de vir fazer um show no Sudeste, mas ela mesma sabia das adversidades que barravam sua vinda à São Paulo, ao Rio de Janeiro ou à Minas Gerais. As pessoas queriam que ela saísse do Nordeste e explodisse pelos quatro cantos do Brasil. Isso não foi possível. Mas Eliza Clívia era maior que sua voz e maior que seu talento. A inconsciência humana faz coisas absurdas e que não podemos acreditar. Esqueceram a voz de uma cantora popular e exaltaram seu corpo destruído dentro de um carro. A multidão que se espremiam para dar-lhes o último adeus sabiam que aquela voz jamais voltará. Mas as pessoas nefastas que brincam com o sentimento alheio correram para as redes sociais para rirem da desgraça que acometeu no silêncio de sua voz. Eliza Clívia não merece isso. Retirem seus vídeos após a batida daquele ônibus contra seu carro, parem de compartilhar fotos e vídeos desse dia. Respeitem a dor familiar e o sofrimento dos fãs. Eliza Clívia merece o digno descanso das estrelas.
 

Eliza Clívia
Por Marcelo Teixeira

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Chico Buarque - 73 anos


Chico - 73 anos
Não é fácil ser Chico Buarque e poder chegar aos 73 anos como se estivesse com os mesmos 21 anos de idade, quando iniciou sua carreira, nos festivais de São Paulo, saindo de sua cidade natal, Rio de Janeiro, para poder ganhar o mundo. Não é fácil ser Chico Buarque de Hollanda, cantor, compositor, crítico, escritor, músico, adorador de poesias e de Pablo Neruda e ainda por cima carregar um belo par de olhos azuis. Não é fácil ser Chico Buarque e chegar aos 73 anos de idade tendo que driblar a censura, tendo que se esquivar de perguntas sobre seu passado, sendo perseguido por fãs e admiradores no mundo inteiro para que lance um disco novo. Chico Buarque completo hoje 73 anos de idade com uma jovialidade incrível e uma aparência nada cansada. O artista, considerado o melhor entre os melhores da arte brasileira, chegou ao patamar de ídolo mundial por ser carimbador de um estilo marcado entre a sofisticação e a nobreza, título esses que poucos no Brasil conseguem carregar. Com mais de 50 anos de carreira, Chico tem 80 discos lançados, dois álbuns premiados com o Grammy Latino, oito títulos publicados, três prêmios Jabuti – o maior da literatura brasileira -, cinco peças teatrais e participações como roteirista e ator em cinco filmes. Além de sua história em forma romanceada, o cantor tem passagens emblemáticas em diversas fases entre sambas, músicas censuradas de cunho político e social. Chico é avesso às comemorações que o circundam e, por esse motivo, é bem capaz de ficar recluso assim como ficara em outros aniversários, em que se exilava em seu apartamento em Paris ou se camuflava em seu apartamento no Leblon. Circunda nesses anos gloriosos o bom humor de Chico, traço marcante em sua personalidade, assim como a idolatria à discrição. Nesses 73 anos de idade, o bom moço Chico Buarque nos brindou com o melhor de sua personalidade e bom humor fino e sarcástico, que muitos proferiram a ele o status de pai (Cássia Eller fora uma das que bradaram em áudio que seu sonho era ser filha de Chico). Seja como for, o ícone brasileiro chega a sua mais bela formosura, mais alta nobreza, glorificada por um sorriso escancarado no rosto e um belo par de olhos azuis. Salve Chico. Viva Buarque de Hollanda.

 

Chico Buarque – 73 anos
Por Marcelo Teixeira